20.5.08

Volto para dentro e fecho a porta

Não escrevo porque tenho vazio em mim. O eco distante não me traz nada e as minhas mãos tremem palavras repetidas, esquisitas, sem alma, sem arte nenhuma de fazer sorrir o papel que as lê. Já pensei fazer desenhos ou pinturas. Mas não tenho arte para isso. Quer dizer, alguma arte até tenho. Não tenho é luz, cores, e a delicadeza de pincel de pêlo de marta. Comprei uma tela de 12 por 12. Uma coisa pequena. E apenas uma cor me saiu: o cinzento-escuro. Depois uns rabiscos de tesoura destruidores de tela. Logo esqueci-me dela em cima da secretária negra… à espera de um dia de uma outra cor.
Sobra-me caos: canetas, papéis, recortes para crachás, moldes artesanais para o estampar de KATZGRABEN em camisetas velhas, medicamentos, garrafas de água, fios, cabos, ideias arrumadas no invisível, sacos cheios de apontamentos, lixo, e um caixote com uma nova máquina vermelha de fazer crachás. Tudo espalhado pelo quarto… a guitarra eléctrica encostada ao amplificador baratucho da Vox, a outra deitada em cima da cama, e almofadas… Ouço sempre a mesma música: o Scott Walker apanhou-me outra vez e eu abri a porta sem querer: são canções novas que se repetem e me fazem ler poesia. Agora escrevo. Estou sozinho. Invento o que fazer mesmo sem saber como inventar aquilo que apenas deve ser feito e não inventado. Fico por casa. De vez em quando saio para ir ao supermercado comprar pão e outras coisas essenciais. Fruta, legumes para a sopa, iogurtes. Pelo caminho sonho. Não consigo caminhar um pouco sem ver filmes longínquos através das minhas lentes (dioptrias a mais e juízo a menos) de estroboscópio. E é um prazer escrever. Novamente…
Mas desta vez sem mandar ricochetes parvos para quem não os lê, para quem não diz uma palavra sequer sobre eles, nem um “vai à merda”, nem um “li o teu texto e acho que…”, nem um simples “viva!”, um “olá”, ou um carinhoso “fuck you”…

Há quem me fale. Há quem, de vez em quando, estale os dedos e me faça abrir os olhos por cinco minutos. Mas já não perco o meu tempo. Prefiro estender a roupa ou passar a ferro. Enquanto o faço tenho ideias, tenho uma liberdade esquisita, uma espécie de segredo que se me revela de mim mesmo. Depois, olho para a erva do quintal que cresce como o mal no mundo e a imbecilidade no universo. Volto para dentro e fecho a porta. Quero fazer tanta coisa que não sei para onde me virar… por isso escrevo assim: desengonçado, confuso, trapalhão. Mas para que isto não termine assim no vazio vou enviar coisas atarrachadas a este papel inexistente.