18.12.07

Ando há já não sei quanto tempo a falar de silêncio e afinal ele não existe. Sentado, na cozinha, escuto: escuto o silêncio: e, aos poucos e poucos, ruídos emergem: o trabalhar dos electrodomésticos (o frigorífico e o esquentador), os aviões a atravessarem o céu lá fora (de minuto em minuto), os passos do vizinho lá em cima (chega a casa sempre a esta hora: 4h), um gato que se empoleira numa grade do jardim (o gato amarelo, o da vizinha do lado esquerdo), eu a respirar, a espirrar, a tossir palavras para uma máquina de escrever antiga, as letras a marcar o papel... mas que raio! Apesar de todos os ruídos e da impossibilidade do silêncio, continuo a senti-lo. Sinto-o a na pele, na carne, nos ossos... e, às vezes, são duas mãos que me apertam o pescoço das quais apenas me livro quando a voz me sai e me ponho a falar comigo mesmo. O silêncio não existe? Que raio de pergunta estúpida. Claro que existe. Existe tanto quanto eu, como tu, como aqueles e os outros. Está aqui neste preciso momento a rir-se para mim... e como não estou a achar piada nenhuma ligo a televisão e ponho-me a ver reclamos estúpidos de natal: luzinhas coloridas, musiquetas de rabanada, pais natais produzidos em série, neve, brinquedos para gente grande... ah, um "crime, disse ela", um episódio de silêncio e um crime muito peculiar: a última gargalhada e os aviões a entrarem-me pela cozinha dentro, o vizinho a pilotar um deles, o gato a abrir-me o frigorífico à procura de queijo (ou um rato?), e eu a tossir palavras nesta máquina de escrever que mais parece uma retroescavadora de imbecilidades.