18.7.08

O meu tempo

Ando à procura de textos. Textos perdidos, textos esquecidos. Textos que ficaram apenas na cabeça nos instantes antes de adormecer, a deambular numa confusão de palavras imensas, desconhecidas, no desespero de quem não tem tempo para nada. Tenho comigo agora um livro barato de poemas do Dylan Thomas. No prefácio, alguém (não me lembro quem) escreveu sobre ele que, por vezes, demorava não horas, não dias, mas meses para escrever não um poema, não um verso, mas uma palavra. Fico a pensar no que isto quer dizer… e esqueço. Volto a procurar os textos perdidos e esquecidos. Não os encontro. Nada de encontros. Nunca mais. Esqueço. Levanto-me para calçar umas meias. Espreito a chuva lá fora. O céu chora muito hoje. Sonhei que tinha uma viagem de avião marcada para um dia qualquer e que me tinha esquecido das horas. Faltava uma hora para a partida e já tinha desistido da viagem. Sonhei também que ouvia música e manipulava botões esquisitos. Sonhei muita outra coisa que esqueci nos primeiros segundos do acordar. E ainda bem. Hoje o dia é de inverno.
Quando é que vai parar de chover? É que não me apetece nada levar o D&G a passear de guarda-chuva e andar a pedir em pensamento aos engenhocas do mundo que inventem uns pára-brisas para os meus óculos. Mas já me habituei a andar com sacos pretos de plástico no bolso para as habituais cagadelas no passeio. Bem tão essencial como a merda de umas notas e uns trocos para atravessar a cidade de uma ponta à outra para conversas inúteis.
Não tenho tempo. Não tenho tempo algum para viajar pelas conversas dos outros ao sabor da maré que não vejo, nem toco, nem mergulho. Não tenho tempo. Não tenho o meu tempo. Nem sequer o dos outros. Paro. Parto.

Detesto começar a escrever um texto e não o acabar. Mas foi isso que aconteceu. É isso que acontece. E agora volto a escrever no espaço em que comecei há cerca de uma semana atrás e nada encontro. Nada descubro. Leio nada. Apenas vejo uma montra de palavras encavalitadas, umas piaditas pelo meio, estúpidas, sem sabor nenhum. Ouço música também sem sabor nenhum. Os “rapazes” a ressonar como uma ronca. A de Esposende. “Tooooooooooooot”. E eu a espreitar lá para fora e este tempo invernoso, pesado, sem sabor, nem chuva, nem nada. Só nuvens. Tenho o braço dormente de tanto tempo sentado. Os olhos pesados de preguiça. E agora nada… nada… nada… não sei o que fazer com o tempo.