Tenho de partilhar isto. Nas minhas aventuras de procura do silêncio, a pesquisar o nome de John Cage nas andanças internéticas, vá se lá saber como, foi-me dado uma ligação para uma viagem de cerca de 20 anos ao passado. Abri a porta e deparei-me, nada mais, nada menos, com o grande hit “Life is Life” dos Opus. Repito: à procura de John Cage, o famoso compositor do silêncio, erudito, fui parar a uma das bandas mais rapetas de todos os tempos, a uma das músicas mais trengas de sempre, a um dos videoclips mais imbecis do universo! «Life is life, la la, la la la». Decorria o ano de 1985 e eu teria provavelmente sete ou oito anos quando ouvi, e vi, aquela coisa pela primeira vez. Era, para mim, a melhor música do mundo (talvez ainda seja), e eu cantava-a insistentemente num inglês desconhecido: “Laife iz laife… la la, la la la… sadthambarambailife… la la, la la la».
(desconhecia também o nome da banda: Opus)
Duas imagens ficaram-me sempre na retina míope: os bigodes dos tipos e a entrada acrobática do vocalista no palco. Ao ver o vídeo novamente, passados cerca de vinte anos, todo o Universo se reconstruiu novamente e algo se preencheu. Na exacta proporção do último verso d’A Tabacaria:
“Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!,/e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu”.
Depois viajei. Fui parar à “Casa da Cigana” na Rua Elias Garcia dos anos 80. Vi-me sentado na beira da estrada a gritar “primeiro!”, “segundo!”, e por ali fora, aos homens que largavam de motorizada ao apito da moagem Vouga na hora do meio-dia. E a mãe lá ao longe, meio-dia e cinco, meio dia e dez, perto do Prédio Azul, a aproximar-se cada vez mais da Casa do Quintela, e já a entrar no portão grande verde, no outro vermelho de madeira, a subir as escadas, a abrir o portão de zinco, a porta, e a comida na mesa antes de eu ir para baixo, passar na casa da avó, e sentar-me na sala de aula da escola primária do Souto ainda com os sons dos comboios na cabeça. Às vezes a cumprimentar o Menezes que engraxava sapatos na estação, a ver o Zé Tone à porta da tasca, a apanhar uma boleia do Lemos, a salvar da morte certa um pintainho, que afinal era um gato, que afinal era uma gata, que afinal desapareceu sem deixar rasto com um prenúncio de veneno. Eram os comboios, os camiões carregados de barro vindo do Andorinhas, a estrada de paralelo cheia de barro caído, de lama, o cheiro a fossa dos campos de S. Bento, as casas do bairro ainda em construção… E a banda sonora a ecoar cá dentro: “Laife iz laife… la la, la la la… sadthambarambailife… la la, la la la». A ajudar a passar o tempo e a caminhada. Era um la la la do caraças: tudo irreal, tudo acrobacias em palco, tudo desejos de ter um bigode e um penteado “à foda-se” e imitar os Opus e os Europe no “The Final Countdown”. Agora sim. Agora vejo tudo. Agora “o universo reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Avô, lá de dentro da tabacaria da Porta Nova, deu-me outro livro de bonequinhos de colorir e sorriu: “Toma lá pás”
(Life is life!)