Hoje, na viagem ruidosa de metro entre Leyton e Edgware Road, “tropecei” num pequeno texto do “velho camarada” Franz Kafka intitulado “O silêncio das sereias”. Resume-se nisto: «Para se defender das Sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e deixou que o prendessem ao mastro.» Mas, «o canto das Sereias atravessava tudo, até a cera». Porém, mais terrível do que o canto seria o seu silêncio e, por via da dúvidas, as Sereias, para evitarem que Ulisses se salvasse do seu canto (embora tal nunca tivesse acontecido) adoptaram o silêncio pois teriam a certeza que disso ele não se salvaria. «E, de facto, quando Ulisses passou, estas portentosas cantoras não cantaram. Ou porque pensaram que a este adversário só se lhes chegava pelo silêncio, ou porque, à vista da felicidade estampada na cara de Ulisses, que só pensava em cera e correntes, esqueceram de vez a cantoria.». No entanto, Ulisses não ouviu o seu silêncio pois pensava que elas cantavam. E as Sereias não cantaram porque pensavam que Ulisses estaria a ouvir o silêncio. E, assim, Ulisses safou-se…
Moral da história:
Cera não. Folhas com voz para as cantoras de cabeça morta. Com vista para um quarto que tivesse coisas venenosas. Porque pequeno, o quase todo chegava para o infinito. Pianos a metro. Sonhos fundentes. Sons de comboios a serpentearem nas folhas e nas cordas do piano. Velhos ritmos. Traços. Ritmos com que se dá a entender a uma Leyton morta, e vazia, que o sonho agora seria apenas uma locomotiva. Textos de Onde que passavam por Onde. Preparados para Edgware no exagero da viagem. O adversáro Franz, de cabeça no infinito… Fios-de-prumo de dúvidas. Ulisses metálico. Poemas de eco todo símbolos. Grafismos mumificados. O tal silêncio… silêncio de agora.