Quando é que nos perdemos? Em que dia? Em que hora, minuto, segundo? Em que tempo, sonho, lágrima? Tristeza é o que resta ao pensar que nem um telefonema, uma carta, uma mensagem, um «estou aqui a ver-te numa fotografia antiga: um sorriso apontado para o céu, as mãos engravatadas, os olhos semi-fechados a brilhar. Eram outros tempos, outras ideias, outras aventuras… até ao dia em que morremos uns para os outros… quando é que nos perdemos? Em que dia? Em que hora, minuto, segundo? E lembro-me da voz a repetir: «que dia é hoje? Que raio de dia é hoje?!». E tu agora o que fazes? Que aventuras? Que ódios tens contigo para não pores aqui mais os pés? Nem um telefonema, uma carta, uma mensagem. Uma coisa qualquer…», nem um sinal de que estamos todos vivos algures neste planeta imenso, nesta planta carnívora gigante que nos rumina todos os dias com saliva morna, para me sentir vivo entre esta gente que não é a minha gente.
Tudo o que tenho agora é silêncio para dar. Nada mais do que aquilo que me dão a mim. Às vezes dou palavras porque não encontro outra forma de traduzir tanto silêncio, tanto vazio, tanta coisa que nunca é dita. Quando abro a porta olho o chão: nenhuma carta, nenhum papel, nenhuma palavra. Fecho os olhos e digo para mim próprio: «És fantasma, és invisível, incolor. Deambulas por lado nenhum. Respiras o nada como quem vê televisão fechada pela noite dentro. São chicotadas. Chicotadas de silêncio amargo. E um desejo imenso de te quererem apagar de vez dos pesadelos, e das vozes que aparecem a ecoar na cabeça quando não há ninguém com quem falar, quando a solidão aparece com as sombras e o frio denso das estrelas mortas.»
Perdemo-nos. Entrámos no outro quarto, na outra casa, na outra carruagem, e todas as nossas tentativas de regresso são quedas no escuro: são como palavras que escrevemos num papel que nos é devolvido amarrotado. Como se a razão fosse apenas um atributo na terra-mãe e tudo o resto um castigo pelo abandono. E, obviamente, ficamos assim, perdidos, a ver um mergulho de palavras apagadas, queimadas, desfeitas. A dizer para o futuro: «agora é tarde. Agora já não há tempo. Agora tudo são fantasmas e para eles já não quero nada. Não quero dizer nada. Não quero mesmo dizer nada. Já é tarde. Muito tarde. Agora sou silêncio. Sou silêncio em combustão eterna. Não me incomodem. Deixem-me arder em paz.»