
Raios. A anestesia está a passar… Já sinto a cabeça menos inchada do lado esquerdo. Já consigo mexer os lábios sem a impressão de ter uma batata dentro da boca. Mas uma dor de gengiva rota começa a entrar em cena de pantufas a avisar-me que brevemente vou ter ecos de correntes metálicas a arrastarem-se no céu-da-boca. Preveni-me com analgésicos, pain killers, e uma caixa inteira de gelado de morango. Hoje e amanhã só devo comer coisas que não dêem muitos trabalhos a mastigar e terei de bocejar água salgada morna.
(água salgada morna só amanhã)
E começo-me a preocupar porque não tenho nenhum mar por perto. Apenas o marulho das árvores do quintal cujas folhas vão caindo secas como peixes mortos, só escamas, e uma caixa de sal grosso.
(Será que conseguirei algo misturando o sal com o som dos ramos? Será possível?)
A M. foi bem clara: «essas dores de cabeça, essa ressonância de dor, essa impressão à volta do olho esquerdo, esse mau estar no lado esquerdo, podem muito bem ser causados por esse malandro». Eu achei que sim. Sem dúvida. E logo anui à pergunta: «vamos tirá-lo?». O resto… já sabem: uma injecção e alicates. Dor nenhuma. Apenas um som (psicologicamente pior do que a dor) de ferramentas a vibrar pelo crânio fora. Um som por dentro que mais ninguém ouve. Um som único.
(ando com uma vontade imensa de entrar numa câmara anecóica: um quarto no qual todo o som é absorvido impedindo reflexões. Nele a nossa voz não é reflectida e apenas a ouvimos de dentro de nós. Supostamente seria um lugar onde poderíamos escutar o silêncio (o silêncio silêncio apenas existe no vácuo). Mas não é bem assim. Segundo quem já entrou num existem duas frequências audíveis: a frequência (baixa) da nossa circulação sanguínea; e uma outra frequência (mais alta) que corresponde ao nosso sistema nervoso. Em suma: o silêncio é algo impossível de escutar.)
Correu bem. O dente saiu inteiro. E olhem que não era um dente qualquer. Era um dente do siso que, por não ter espaço, cresceu deitado. A coroa ficou virada para dentro e as raízes (tinha 3) formaram-se em curva. Uma coisa muito esquisita. De circo. De pôr duas médicas dentistas e a M. a apreciarem admiradas a raridade do caso. Um caso de estudo, portanto. A M. deu-me o dente embrulhado num lenço de papel e eu estava verdadeiramente ansioso para lhe tirar uma fotografia quando chegasse a casa. Não era um dente qualquer… Juro que não. Juro que também o meti no bolso e não faço a mínima ideia onde é que ele se enfiou. Terei deitado o dente fora? Terei um buraco no bolso do tamanho do que tenho na gengiva? Terá o dente sobrevivido à morte, rasgado o bolso do meu casaco e comprado um bilhete de metro para as perdidas ruelas do centro à procura de uma câmara anecóica? Terá o dente do siso perdido o juízo? A verdade é que não o encontro… perdi-o
(terei o deitado fora sem querer?)
Seja como for, segui as recomendações da M. de ficar por casa hoje e por isso não o vou procurar. De certeza que sabe o caminho para casa. E espero que, ao regressar durante a noite para se deitar novamente na minha gengiva, não me acorde com silêncio. Ah! E que me traga drogas: Nimed ou Jabasulide. Tanto faz.