17.9.07

E agora? O que vai ser daqui para a frente? O que vai ser deste «agora» imaginado de composição estelar: fios, cabos, botões, ruídos, feedbacks, experiências sonoras, explorações ao interior do ouvido: tímpanos, ossículos, trompa de Eustáquio, cócleas? O que me reserva esta viagem nova em teclado QWERT de máquina eléctrica sem acentos, cê de cedilha, tiles e acentos circunflexos? Quantas perguntas mais vão nascer como pragas nas viagens de metro entre Leyton e Edgware Road e nos momentos espirituais de fim de dia a regar a horta: os tomates, as ervilhas, o feijão verde? Será que os rebentos de alface e de cebolinhos nos darão, em breve, um sorriso amestrado? Será que aquele toquinho plantado na passada sexta-feira irá dar framboesas (não amoras! framboesas)? Será que aquelas raízes tão frágeis irão sobreviver neste solo impuro de teclado QWERT, de cabos eléctricos por todo o lado, transístores, amperes, construções gramaticais difíceis, vocabulário técnico, botões de agudos, médios e graves, decibéis, esparguete de jacks e rizomas? E as toupeiras de HCESAR? Os caracóis? As lesmas? Os fantasmas? Sentar-se-ão no mesmo auditório de Katzgraben a contemplar todos os devaneios gasosos e pegadas no gelo quebradiço? Será…

Sento-me numa cadeira do quintal à procura de silêncio encontro as vozes abafadas da vizinhança, pios da passarada do costume, o som imenso do vento a agitar as ramadas das árvores… fecho os olhos… é o som mais parecido com mar que conheço nestas paragens… o mar… a falta que faz… para salgar a espuma dos pensamentos e arrefecer as algas das trevas interiores, profundas, enigmáticas. Tenho isto, vá lá: um verde de milhares de folhas em agitação de ondas de ventania; um, dois esquilos a respirarem por guelras; um gaio de barbatanas na apanha do zooplâncton; uma pêga a espalhar terror num cardume de mosquitos; um corvo escamado a dar no promontório da chaminé; uma raposa a trepar o coberto da boa esperança, o pombo Henrique de asa na testa a espreitar o horizonte, um outro corvo, o Vasco, a cobiçar a chamuça indiana da cozinha da vizinha do lado…

Mas, as folhas começam a cair uma a uma e, em breve, o Outono esvaziará este mar. Será um outro cenário: árvores despidas, pigmentos castanhos, um som de folhas estaladiças debaixo dos pés, frio de esfregar barbatanas uma na outra, óculos de mergulho para um mar ausente, barbatanas-pantufa nas asas e zás! Um mergulho repentino! Sem perguntas! Sem respostas! Sem o raio que parta este constante estado existencial, absurdo, cego, surdo, mudo! Sem bóias! Sem salva-vidas por perto! Sem ninguém! Só barcos na noite lá no fundo, luzinhas longínquas em bamboleios de canção de embalar, a ronca, a intermitência do farol… e um corpo deitado nas redes dos pescadores, adormecido na cama de algas já secas, escuras, mortas, prontas a espalhar como fertilizante neste solo impuro de teclado QWERT.