17.9.07

Não tenho vontade de escrever. Não tenho tido vontade nenhuma de escrever. Setembro trouxe-nos uma avalancha de mudanças e apenas tenho vontade de me deixar levar e de escrever nada. Fico a ouvir música. A ler. A procurar qualquer coisa que ainda me faz falta. Não sei bem o quê. Por isso, quase todos os dias, por volta das 10 horas espreito o hall de entrada a ver se há cartas no chão. Vou até ao fundo do jardim ver se há rebentos. Espalho alguns amendoins a ver se os esquilos “botam mais um bocado de corpo”. Na verdade, deveria dar-lhes rosca, porque segundo a “bó velha” a rosca vai toda para as pernas, neste caso, patas. Mas os dias já são de Outono, os domingos são de Outono, a pele já é de Outono. E as palavras caem como as folhas das árvores, secas, mortas

Nada dizem.
Humedecem.
Fazem aquele
barulho estaladiço
debaixo dos
nossos pés.
Já nada dizem.
Vão com o vento
frio
a chuva.
Perdem as maiúsculas
os pontos de
exclamação
as interrogações
as dúvidas
Ficam assim
Numa tristeza morta.
Órfãs de
um
mar de
vento verde.
Amontoam-se à porta
e dizem-me elas que são
as cartas
que não recebo
mesmo mortas.
Sem envelope
Sem selo
Sem remetente
(o mar?)
Sem caligrafia
Sem tinta
Apenas sonhos
Viagens
Sons de búzio
Algas
E um desejo.
Um desejo
extremo
de terminar
o dia
a vida
a queda
dentro

de um destes
livros.
Entre páginas.
Entre PÁGINAS
de
Papel de OUTONO.