8.9.07

Já é tarde para ler as páginas que guardei na gaveta e as mil e uma ideias amontoadas aqui neste quarto de fim de mundo. O cenário é um candeeiro aceso, uma máquina de escrever antiga com a fita gasta, livros velhos encontrados no lixo, papéis amarrotados e um frio vindo da noite tardia. Imaginava-me assim, um dia: olhos queimados: o meu reflexo no vidro da porta, sombras, e uma raposa a esconder-se da luz do pátio que dispara com o movimento. Espero por um motor e portas a bater na rua deserta. Vozes sussurrantes. Sons misteriosos. Conversas do outro mundo. Mas a hora passa sem um único eco vindo do fundo da rua. É tudo silêncio. Apenas silêncio. Nem bichos, nem zoadas de trompeteiro ou asas de borboleta a baterem na lâmpada do candeeiro. A única gente que passa é fantasma. Protagonistas de filmes mudos em câmara lenta.
Olho para as fotos que a J. pendurou na parede: uma velha rancorosa de vestido preto tingido às florzinhas brancas num cenário cadavérico: um calendário na parede (nele uma mulher de ligas pretas em pose de chicote sadomasoch) de 1991, um televisor a preto-e-branco aceso e nele o perfil de uma outra mulher (a mesma do calendário?), cortinados de vegetação verde numa casa da Rússia; a outra fotografia mostra uma outra mulher, mas uma espécie de fada de braços cruzados, sem varinha mágica, e de olhar profundo para o lado de cá, num cenário de cores perturbantes: a fada em tons de beije, flores brancas no cabelo e um caracolito escuro na testa, saias de uma cor de outro tempo e meias brancas com os mesmos desenhos da toalha de mesa vermelha da velha. Olham ambas para mim. Dizem-me coisas de boca cerrada, mudas, quietas… as mesmas palavras de páginas do primeiro capítulo de um “coração de trevas”: as das mulheres a tricotarem lã preta.
As mil e uma ideias continuam amontoadas, espalhadas pelo chão do quarto. A noite cada vez mais fria, cada vez mais silenciosa, cada vez mais fantasma. Mas o arrepio que me acorda não é do corpo arrefecido, nem do motor que tarda em chegar. É o do elevador que se mexe a meio da noite para o terceiro andar e que só depois, muito depois, me traz as estrelas que apagam os pesadelos e, com o primeiro sono da madrugada, o eco infinito: we burn daylight, we burn daylight, we burn daylight…

(ontem, dei mais uma vez asas ao vício: encontrar livros usados baratos em lojas de caridade. A pesca foi esta: “Gulliver’s Travels” de Jonathan Swift (£0,59); “Memories, Dreams, Reflections” de C.G. Jung (£0,99); e “A New Anthology of Modern Poetry”(£1,49). Mas a expressão que deu o título We Burn Daylight veio de um outro livro encontrado no lixo (!): “Brewer’s Dictionary of Phrase and Phable”. Quer dizer mais ou menos isto: «perdemos tempo a falar em vez de agir». Só por isso já valeu a pena a reciclagem…)