Ainda o silêncio. Ainda uma pauta vazia, sem traços, sem símbolos, sem grafismos barrocos. Ainda uma folha em branco triste e uma árvore cada vez mais despida, quase nua, quase morta. Ouço ruídos de vez em quando. Comboios e “clangs” metálicos a reverberarem num quarto amplo de ressonâncias duplas. Vozes distorcidas, ao contrário, poetas futuristas de anos atrás, agora mortos, mas não enterrados. São também pianos preparados com porcas e parafusos nas cordas. Sons da cidade, sons do campo, sons de um infinito fantasmagórico: ritmos de metro em 4/4, corvos num exagero de amplitude mumificada, vento nas ramadas de “metal fundente”, assobios de locomotiva em ecos de fim de mundo. E o fio-de-prumo? Onde está ele? Onde está essa medida vertical das coisas que nos permite entender tanto de tanto? Não existe. Nunca existiu. É apenas um sonho com cobras por todo o lado. Fios-de-prumo a serpentearem pelo chão, e nós num esforço de os metermos num saco de serapilheira. Com todo o cuidado para que não morram… os nossos fios-de-prumo-serpente… também capazes de mordidelas venenosas, fatais… cabeças de Jano.
(Não mais o silêncio. Há sempre uma ressonância, uma palavra, uma guitarra velha que acidentalmente cai num estrondo alcatifado. Sem dissonâncias. Sem quebras. Apenas um vibrar de cordas em “formato F”. O dos harmónicos da lua de Junho. Em loop eterno, em eco eterno, em não-palavras eternas. Só os harmónicos. Só os dois acordes: C e F. Sem tempo definido.)
Nada acontece lá fora, excepto frio.
(“O Barcelos” da avenida comprida de Leyton fechou. Pouco me importa. Entrei lá uma ou duas vezes e “Porta Nova” nem vê-la… nem castelo, nem nada. Um mero café-restaurante com um placard a dizer “O Barcelos” ao lado de um desenho de um galináceo parecido com o Galo de Barcelos. Agora chama-se “Oceano”…)