Neste outro regresso a Londres (24/07/7) não há mergulhos de água fria, barbatanas agitadas, nem espirros ulra-concentrados para o desenfastio do caos urbano. Não existem fantasmas a deambular de um lado para o outro e fisgadas de fuga visíveis na claridade de buraquinhos de persiana. Nem o “não querer ver gente, corpos, estátuas em movimento”, o “não querer ouvir vozes gastas, podres”, a despejarem palavras e tretas no autoclismo depois do café da manhã esquizofrénica. Recordações tristes, apertos na garganta, vazios ruidosos, sombras manhosas, ameaças de bombardeamento de tristezas, depressões, fugas de gruta, respiros de montanha de papéis esquecidos, encontros, desencontros, solitárias investidas em gavetas de fotografias desorganizadas, a preto e branco, a cores, rasgadas, esquecidas, prontas a abrirem buracos no peito e lágrimas no tempo (e pelo tempo), e uma caixinha de música a tocar uma musiqueta a perder-se lentamente na corda gasta para o adormecimento…
(já passa das 10 horas da noite e eu não sei se tenho olhos para continuar a escrever)
Neste outro regresso a Londres não carrego amendoins para os esquilos, nem as outras merdas pesadas para a restante bicharada. Nem as ambiguidades, as hesitações, os pavores, as vozes graves de dedo apontado aos buracos rasgados na terra… e um corpo oco de recheio de papelão a afundar-se no sufoco do esquecimento. Nada disso. Desta vez venho do outro lado do muro. De Berlim. Do encontro com aquela nave espacial a brotar da terra. Do palco de ursos com asas e bigodes de gato. Da plataforma metalúrgica de traqueias “sem querer” artísticas e de palavras de monóxido solidificado. Dos planaltos de silêncios e gestos de frequência AM na longínqua melodia de Brecht. Das viagens lentas em bicicletas Benigni num postal ilustrado cómico (ou cósmico?). Das crateras em paredes de edifícios bombardeados na horizontalidade de guerras entre o ser e o não-ser. Fora de questão. Três coisas elementares: comboios, edifícios e fantasmas. Se calhar, já nem fantasmas. Gente silenciosa. Em câmara lenta. A atirarem palavras ao silêncio e sonhos à razão. A acenderem luzes na noite para mais uma garrafa quebrada no espelho. Nada de fantasmas. Nada mesmo. Só acenos, gestos de perda dos dias, vozes perdidas. E no amanhã um outro amanhã.
Que raio… Não era nada disto que eu queria escrever. Passei horas no aeroporto a imaginar livros, sessões de escrita imparáveis, tanta coisa para dizer no meu tempo, qualquer coisa para o urso… Mas o que resta é isto: uma pessegada de noite quebrada, de olhos gastos, cansados, a formatar todas as imagens cuidadosamente guardadas na transparência de um embrulho de papel arroxeado.
Abro a pasta das fotografias.
Cristalizo-as com as vozes e ruídos que vivem ainda nelas.
Abro a porta do quarto e deito-me no escuro.
Oro: “Ich bin ein Berliner”.