(na varanda)
Hoje lembrei-me das mãos do homem. Gestos impacientes a entrelaçarem dedos ao ritmo das palavras incertas, gravadas clandestinamente numa casca de árvore velha, quase morta, a desafiar tempestades e fantasmas. Era um asilo na zona leste de Berlim. Um edifício com varanda. Dela, uma paisagem para gaiolas de cimento e silêncios imaginados de dentro das janelas fechadas. Lençóis estendidos numa delas. Corvos a atravessarem nuvens cinzentas. Ruído de trânsito ao longe. O homem tricotava lã invisível. Também preta. E contava histórias: paixões naufragadas, passados longínquos, esquecimentos, visões fora do mapa, melodias de outros tempos e fugas. Na mesma varanda um tolo. E mais outro debruçado. O primeiro a dar passinhos de tartaruga-ave de um lado para o outro. O outro a ver as luzes da pista do aeroporto e a abrir as asas de pinguim para o outro lado do planeta. Não em voo. Em queda da varanda. Na direcção do chão, numa gravidade de maluco, para um furo a atravessar magma, o centro da terra, e a brotar no antípoda, no outro lado da maluquice. O das mãos, o nosso, era já um homem-árvore, todo abraços, ramada, a querer desprender as raízes da terra para aproveitar o buraco no chão deixado pelo outro. E, obviamente, para chegar mais depressa à Tailândia…
(no quarto)
O homem não sabe o que guarda na gaveta. (ou já sabe?) Farrapos, papéis, pedras preciosas, um pedaço de bolo de queijo, cartas, os nomes das filhas… Na outra cama um Gregor Samsa: cara de insecto, mãos entrelaçadas no peito, pernas de louva-a-deus, imóvel, de rádio sintonizado numa frequência de extra-terrestres. (Reparaste na música que tocava quando entrámos? “Lullaby” dos The Cure… a perfeita banda-sonora para o momento). Depois, as mãos do homem apertaram as minhas. Senti folhas secas de Outono, ramos despidos, barulhinhos de vento e um vazio de carapaça a ecoar-me no abraço. A voz do Scott W. a chamar-me para umas valentes bofetadas na carne morta. Desenterrei imagens de um passado longínquo… a imagem da autópsia: uma carapaça craniana a baloiçar na banca cinzenta, tripas, costelas abertas, papel de jornal amarrotado a ocupar o lugar do cérebro (já em fatias no prato da balança). Para quê tanta pressa? Para quê?
(blackdog de um raio!)
O elevador desceu. Cresceram-me mandíbulas e pêlos pegajosos no rés-do-chão. Não consegui falar palavras durante 15 minutos… e durante toda a viagem de bicicleta fugi dos morcegos…
(blackdog de um raio!)