Há imenso tempo que não pára de chover. Uma semana? Duas? Talvez mais… Vejo da janela os pingos de chuva a caírem no reflexo do céu cinzento, os ramos das árvores do jardim numa agitação imprópria de Agosto, o estendal vazio, as molas coloridas sem brilho, de cabeça para baixo, mortas. Da janela do outro lado vejo a rua vazia, um carro ou outro, outras árvores também tristes, a roseira morta, ninguém. No chão da entrada nenhuma carta. Apenas as papeladas coloridas do costume (comida chinesa, pizzas, companhias de mudanças…) e jornais publicitários gratuitos. O vizinho, supostamente agente da Scotland Yard, afixou um papel na porta:
«To whom it may concern:
Gone to Geneva.
Will be back on Monday: 27/08/2007
Dotun»
Volto para a janela das traseiras. As árvores, os arbustos, os pingos de chuva no cimento, uma cadeira esquecida, a fogueira dos churrascos já de sobretudo e guarda-chuva, uma poça de dias líquidos, frios, e cores que desaparecem como bichos que hibernam. Reparo que as folhas das árvores começam a despir o verde. Vão ficando amarelas e castanhas. Algumas caem. A chuva e o vento trouxeram-lhes já a morte do Outono. Duas semanas? Três? Já nem interessa. Este Agosto é já de uma outra estação:
«To whom it may concern:
Gone to Autumn.
Will be back next year: 2008
August.»
Talvez o vizinho, o Dotun, o Ogundele, o polícia, não regresse na segunda-feira. Talvez Setembro traga o sol esquecido de Agosto. Talvez eu já não esteja aqui a humedecer no quarto a remoer a vida absurda enquanto a mãe espanta fantasmas por toda a casa. Talvez receba cartas, boas coisas, com alma, com futuro, com algo que não seja silêncio e vazio. Talvez ainda não me aventure mais no disparate de tentar bater claras em castelo com um daqueles espremedores (ou secadores, ou lá o que é… não interessa) de alface. Talvez, um dia destes, escreva também um bilhete e o cole na porta:
«To whom it may concern:
Gone to the future.
T.»
(a Rachel T. ofereceu-me um cartão no meu último dia no Secretariado. Por fora: a pomba branca do Picasso. Por dentro diz assim: «Dear João: Thank you for all your help with the Portugal work – it would have been really difficult without you. Good luck and best wishes for your music course. Stay in touch! Rachel». Saí pela primeira vez pela porta da frente do edifício... e disse-lhe que talvez voltasse.)