7.7.07

(regresso a Londres)

No dia em que regresso a Londres (7/7/7) acordo num umbigo gigante a gritar tempestades silenciosas e espirros de alergia ao pó, à terra, ao ar que se respira em apartamentos engaiolados deste desordenamento urbanístico contemporâneo digno de uma galeria de atrocidades num outro terceiro mundo qualquer. Dois mergulhos em água fria, três sacudidelas de barbatana e arre grande máquina com asas! Para longe! (um longe, na verdade não tão longe quanto isso)! Para a terra invernosa! Para o vício da solidão nas multidões! Para a melancolia de um fado psicadélico de guitarras com electricidade! Para as tristezas enfrascadas em souvenirs ridículos de conversas (também ridículas) entre o “cá” e o “lá”! Para o “no future” do punk em extinção e de um Panque em ebulição imaginativa! Para uma outra coisa qualquer que não esta…

Mochila a abarrotar de alimento para a bicharada: amendoins para os esquilos; páginas de Edgar Alan Poe para os corvos; embalagens misteriosas para as raposas (e imbecis do aeroporto); gatafunhos para os ratos; e outras merdas para os gaios, as pegas, os pardais e outros objectos voadores não identificáveis. Na mão, uma outra dose de esquecimento e alheamento para aguentar a viagem, a estadia, e um outro provável regresso numa outra improvável altura. Nada de despedidas. Nada de acenos de mão suada a transpirar lágrimas. Nada de brincadeirinhas de recreio da primária, armado em carrinho eléctrico de festa das cruzes, em marcha atrás, de costas voltadas para o muro e para o calhau da baliza improvisada, e depois, só muito depois, (em câmara lenta), a mão a escorrer o sangue da nuca, o correr para a professora sem querer ir ao hospital, a enfermeira a enfiar-me a agulha na pele e a coser-me os miolos para aprender a não andar para trás. Efeitos secundários: um dia sem escola e uma cicatriz à maneira. E agora uma gargalhada a nascer sorrateira entre os feijões, os tomates, as ervilhas e as cenouras da horta (os nabos ainda não fizeram a revolução). Uma tempestade a sinalizar a chegada (assim como acontecera na partida). Um piano velho, desafinado, que retoma o tema amoroso do “Twin Peaks”. Um livro qualquer para a amortecer a semana antes do ter Berlim debaixo dos pés. Um festival de loucos contra o racismo durante o fim-de-semana… uma piscadela coimbrã de outros velhos tempos. Uma semana que passa à velocidade canhão do crescer de ervas daninhas e eu a arrancá-las no jardim mais jardim das traseiras da Malta Road, em Leyton, nordeste de Londres. O único jardim das redondezas com cinco árvores. Quatro de cabeleira verde e uma morta. Façamos a fogueira.