14.5.07

Ando há não sei quanto tempo fora de casa. Escrevo-me cartas que me são devolvidas e, por vezes, telefono-me para uma voz impossível, convertida num toque intermitente de desligado, interrompido, ausente. Ao princípio as cartas ainda se amontoavam à porta mergulhadas na campanha da papelada colorida de supermercado. E o sinal de auscultador ainda era um “lá” mais longo do que este a chamar por mim. Eu todo surdo. Eu a más horas fora de casa sem distinguir na noite os envelopes craft no meio daquele “spam” tão físico quanto caótico. O apartamento vazio. Eu num outro sítio qualquer para onde vão os perdidos. Nos primeiros tempos fui um fantasma. Agora sou o quê? Uma estatueta de incubadora de museu a abrir os olhos para o flash fotográfico de japoneses? Um desaparecido sem retrato robot? Ou um retrato robot sem nunca ter desaparecido?

Durante não sei quanto tempo custou-me perceber o meu vazio no apartamento. Pessoas estranhas numa zanga domingueira, objectos estranhos, mobília feia, cores diferentes, cheiros distantes, a falta de música. Uma guitarra de cordas enferrujadas que deixava de vibrar com o “lá” do telefone. Uma outra guitarra despida de cordas (não há nada mais triste do que uma guitarra sem cordas) e um xilofone dos 300 sem criança para brincar. A janela só prédios e chuva, e um ninguém lá fora a filmar o fechar repentino dos cortinados.

O meu apartamento agora é outro. É maior… mas também não é bem um apartamento. É um aeroporto cheio de gente de um lado para o outro, ecos de partidas e chegadas, línguas estranhas e visões fantasma à luz das enormes vitrinas do tamanho dos aviões. Gente que alimenta as filas de check in numa impaciência de repartição de finanças, só que mole. Bagagens pesadas como os sonhos de quem não se atreve a tirar os pés da Terra. Ecos de alicerce pós-moderno a reverberarem palavras incompreensíveis. Mulheres que possuem asas. Livros-romance a atirarem palavras como quem guarda cosméticos em sacos de plástico transparente.

Ontem, na deambulação de fim de dia no meu aeroporto-apartamento, sem estar à espera, encontrei o Luís. Sorriso automático. Mãos para o aperto bem maior do que elas. Bilhete na mão para um concerto aéreo. Uma “pint” preta pousada a postos para a grande viagem e um abraço da largura do tempo (não sei quanto) de estar fora de casa. Pela primeira vez, o Luís estava sem palavras. Apenas o sorriso automático. Apenas uma música longínqua ouvida apenas por nós na direcção da porta de embarque. Um sonho dos dois a abanar o capacete num esparguete de cordas enferrujadas. E nem uma palavra só. Nem um “que lindo!”. (Eu surdo?) Nem sequer um retrato robot da voz, das palavras, dos pensamentos que se adivinham, dos sons em eco de partidas e chegadas, dos encontros nas noites do balcão de café tardio, da recordação de um último concerto, um último feedback, na casa dos tolos de sorriso em piloto automático.

Nem.

Uma.

Palavra.

Só.

Apenas um aceno de bilhete de rock na mão. E este não sei quanto tempo fora de casa a pesar-me nos olhos, nas mãos, nas palavras que se contorcem no papel, nas imagens de pouca felicidade (que parecia) interminável. Talvez eu tenha morrido primeiro. O melhor é deixar de escrever-me cartas e telefonar-me na vontade de um “lá” a vibrar cordas de guitarra. Vou é ligar para o Luís um dia destes. Pode ser que já tenha algo para me dizer.



Londres, 15 de Maio de 2007



[Conheci o Estufa, o Luís, numa qualquer noite fumarenta entre copos de cerveja e sombras próprias de café. O tema era o de sempre: música. Entre colcheias e arrepios de electricidade de guitarra éramos só palavras numa boleia nocturna para 1001 concertos imaginários, improváveis de acontecerem num tão curto espaço de tempo. Foi o paladino do último concerto, aquele do cartaz craft e do desenho esquisito. Não sei quantos bilhetes lhe passaram pelas mãos à velocidade impossível em que as palavras lhe saíam do sorriso abonecado. Foi a conversa rock entre a Barcelos gasta e a Londres viva por entre a o nevoeiro dos ausentes, à velocidade lenta para Paredes de Coura no ano de Arcade Fire, Pixies e Nick Cave. Foi a descoberta de que, afinal, os grupos existem com a idade e uma rodada é mais do que uma troca directa de trago por trago. “Tiago”, dizia, “ouve isto”. E eu ouvia. Nunca pensei que a minha ausência fosse tão abismo e me atirasse para uma arena sem público na poeira diabólica de quem esfrega os olhos. O Estufadinho morreu. Aqui, longe, sem poder sentir as vibrações rockeiras da morte fico sempre com a sensação de que morri primeiro… O Estufadinho morreu. Escuto-lhe a voz (“Tiago, ouve isto!”) no eco interminável de um corredor escuro, a rir-se, a dizer qualquer coisa de entusiasmo disto ou daquilo, a atropelar-se em ideias que não acabam nunca... E não acabam nunca… E não acabam nunca… E não acabam nunca…14/5/2007]