4.3.07

Os corvos nas chaminés das casas
são um dia de chuva melancólico, um domingo de cama
entregue à invenção.
As gotas de chuva na janela são um apagar de imagens abstractas
num lugar desconhecido.
(ficámos em casa, cada um na sua joy division)
Preferimos o silêncio e as máscaras de nós mesmos
guardadas num passado coberto por lençóis brancos.
Não há tempo para novas descobertas, novos encontros,
novas tempestades.
A vida é um quarto de livros e pensamentos.
Histórias por contar.
(um som de chuva artificial)
Somos estas paredes, esta janela, esta árvore despida
no cinzento do céu de Londres.
Somos nós as palavras que não nos são ditas.
Viajamos na rotina dos dias, cansados, à procura
de um sonho que tarda. E destruímos
todas as hipóteses que temos de sobrevivência.
Somos almas perdidas. Vagabundos incorpóreos.
Estamos perdidos nesta privação triste e monocromática.
(desejos supérfluos)
Tenho medo do acto: o ter uma vida nas mãos
e não saber o que fazer com ela, perdê-la,
transformá-la, enganá-la. Criar é um desespero.
Criar para o nada é um tormento.
Os actos transformam as ideias. Levam-me
para um lugar perdido, triste, sem alma.
Abandonam a cidade, desfazem-se em pó.
Crescem para uma maquinaria de atropelos.
(o telefone permanece silencioso)
Não existe um perdão para os malditos, os assassinos,
os da noite calada. Revoltas ruidosas dão lume
à forca. A cidade dorme em pesadelo
numa imbecilidade de presépio e musgo.
Pequenos ruídos e água benta/lenta dão a banda-sonora
estagnada. O tempo não existe.
(escreve burro, escreve burro)
As tuas ideias são pérolas nas mãos de outros,
nas tuas são nada. Bebe um outro sabor, um outro sangue,
e deita-te na lama à chuva a amolecer a carne.
O nada é nada.
É estar deitado assim, uma cama quebrada,
a pensar, a pensar, a pensar, até esgotar
o pensamento e adormecer para um outro pesadelo.
A chuva pára. A música fica feia e as portas
fecham-se.