Neste carrossel não existe a bicharada do costume, as girafas, os elefantes, os leopardos, os veados, as zebras, nem os comboios sorridentes, nem os automóveis descapotáveis de guiador à kit e buzinas de palhaço, nem o pai e a mãe a dizerem adeus do lado de fora com sorrisos de medo «se o menino cai, se a girafa se parte e um braço também, se há um curto-circuito, se o carrossel se descontrola depressa demais e o menino deita sangue pelo nariz».
Neste carrossel tudo são monstros e as luzes já não são tipo pinheirinho triste de natal. São ruídos de pré-descarrilamento, tábuas que rangem em ondas de enjoo, gente que passa do lado de fora indiferente aos adeuses das girafas, dos leopardos e às buzinadelas do meu automóvel-locomotiva - «pouca-terra, pouca-terra» - preso pelas rodas às ondas de madeira em viagem elíptica para a desgraça citadina. Neste carrossel os monstros são os mafarricos com assinatura RR de tridente ao alto e fé em deus, Cristos pregados no vazio em combustão de palavras bíblicas que nada dizem, absolutamente nada, lampreias de quatro patas com caretas de banda plástica a tocarem violão sem cordas (partiram-se) numa electricidade perigosa de strob a disparar flashes de pista de dança onde corpos mortos deambulam feitos fantasmas num eco grave de metafísica.
Endoideço. Chamo nomes feios ao Cristo sem cruz para que faça o milagre dos carrosséis e rezo pelo não descarrilamento de coretos na linha do Minho e pelo senhor doutor de sobretudo de cobrir gente parecida com o César Monteiro. Rezo sem saber o que isso é. Sem nunca ter percebido muito bem por que raio a catequista com cara de lampreia me veio perguntar quantos pais-nossos e avés marias tinha nos bolsos quando saí pela primeira vez do confessionário. E por que raio ficava eu feito parvo num manicómio (os loucos de parvo não têm nada…) a olhar para um altar de Santo António sendo que o único António que eu conhecia não era santo e escrevia poemas e canções para ecos de pavilhão de hóquei em patins (de insónia): «toma o comprimido que isso passa». A lampreia a ralhar-me pecados de dentro da incubadora benzida, a fazer-me tirar do bolso a sentença do padre que entrou em stereo por ambos os ouvidos e saiu masterizada pelo cu numa lenga-lenga subtil (puff) mal aqueci o assento de penitência para o altar ao encontro com Deus. Eu a acenar com a cabeça num gesto «sim» e a mexer os lábios num faz de conta de quem com hóstias sagradas como se fosse realmente o corpo de Cristo pregado sem cruz num postal que não era meu. O mexer de lábios era, na verdade, palavras do António, não do santo, do poeta ausente: «toma o comprimido que isso passa; tomo o comprimido que isso passa». Depois aproveitava para conjugar os verbos: «eu tomo o comprimido, tu tomas o comprimido, ele toma o comprimido» … O rezar era o presente perfeito: «nós tomamos o comprimido, vós tomais o comprimido, eles tomam o comprimido». E tudo passava…
O padre nem era padre. Era um boneco de barro de Galegos qualquer com hálito a argila a ouvir em mono os discos riscados das criancinhas para a primeira comunhão: «chamei nomes aos meus amigos, atirei pedras, chamei nomes aos meus amigos, atirei pedras…» e de vez em quando um «levantei a saia às raparigas» que o fazia levantar a agulha do vinil das condenações e das assombrações da culpabilidade para amedrontar os carneirinhos de presépio. Eu só lhe fiz uma pergunta: «o que são pecados?» e a resposta veio embrulhada em naftalina: «é tipo chamar nomes os teus amigos, atirar pedras». Nada de «levantar saias às raparigas» para não dar ideias.
Como não percebi nada do que me foi dito meti tudo nos bolsos furados. Azar o meu: os pais-nossos e avés marias evaporaram-se sem água benta para um carrossel de monstros antes do playback do comprimido. Acabava de cometer o maior pecado do mundo! Sem perdão possível… Sem perdão possível definitivo quando a primeira hóstia colada no céu-da-boca a saber a argila de mafarrico se transformava no arroto da sêmea com manteiga derretida nas manhãs de domingo. Jejum impossível.
Neste carrossel tudo são monstros. Já não são girafas, elefantes, leopardos, automóveis descapotáveis, zebras… São lampreias de terço ao pescoço a sugarem hóstias como se sugassem o sangue do corpo de Cristo morto numa dieta de pecados para “mais uma voltinha” no carrossel do altar. Já não são luzes tipo pinheirinho triste de natal… são sanguessugas a apertar buzinas num Carnaval triste de criancinhas de presépio em ondulação giratória numa pista de dança de fantasmagorias.