12.1.07

carrossel III

À nossa espera, na confusão formigueira de partidas e chegadas, entre gente em labirintos de suspiros de pés na terra, os mafarricos vermelhos da RR de olhos de procurar (muito abertos). Olhos fixos na insónia da espera, atentos à rapidez alienígena de bandeirinhas da cor deles, a descerem para o átrio de recolha do barro. Barro a moldar-se na língua inventada na roda gigante da RR, num rock surrealista de quem nunca viu nada a não ser monstros e outros Cristos pregados na cruz. Os mafarricos disfarçados na multidão: gabardina escura e bigodes postiços a derreterem a argila do tempo perdido numa outra terra distante e anónima. Tridente ainda incandescente a espalhar brasas no tapete rolante da bagagem confusa, camuflado na cor discreta do barro por cozer ainda bem longe do sentimento quebradiço e do sonho triste. Narizes ao alto (e fé em quem?) em baforadas de fumo infernal no mar de gente brava em redemoinhos de espuma e maremotos de hora de ponta, quais narizes–batata de Loch Ness no preto & branco da discrição despida do vermelho característico das bancas de feira de artesanato.

O dia a nascer enublado para o desenho do pregão na rouquidão, ainda de cama, e o mafarrico vermelho da RR armado em locomotiva, a tossir palavras de vapor inglês – “pouca terra, pouca terra” -, a apontar o tridente incandescente para “uma cerveja no inferno” em viagem monótona de leitura - “pouca terra, pouca terra” -, a afiar os cornos na hortaliça do dia de quinta-feira, a nascer para o pregão antigo dos avós - “pouca terra, pouca terra” – a levantar o cartaz no átrio de chegada com um nome desconhecido escrito, quase invisível, de letras gordas e pequenas - “pouca terra, pouca terra”- a mugir a barbicha num gesto de quem arquitecta sudokus de cores confusas, na procura da semelhança da fotografia tipo-passe guardada no bolso das palhetas - “pouca terra, pouca terra”… A terra, sob a forma de planeta quadrado, a tornar-se cada vez mais pequena na página de um jornal qualquer: o sudoku terrestre das geografias impossíveis.

Os mafarricos vermelhos da RR à nossa espera, de olhos abertos, no mar bravo da multidão de Setembro. Folhas cuidadosamente moldadas pela RR a caírem secas das árvores e a quebrarem-se em cacos de barro pintado. As árvores semi-despidas na janela grande da sala de desenho a reflectirem grafite na folha em branco (tão delas). A seiva das palavras do professor Osório a alimentar monstros criados no tempo dos avós, na lentidão de um filme de César Monteiro. Eram fisicamente tão parecidos… Cada palavra, cada folha de árvore quebrada no chão molhado e frio, onde se deitavam os da porrada nos intervalos. Já não era Setembro… era um tempo mais frio de pôr neve nas cartas perfumadas de incenso. Cartas de um útero esquecido de partos de barro, a dizerem aquilo que nunca deve ser dito: a verdade. Os postais não enviados: um monstro com boca aberta de peixe (algo entre o tenebroso da piranha e o ridículo da lampreia) de viola na voz, a cavalgar num outro monstro vermelho às pintas, que era meu; e um outro Cristo vermelho igual a tantos outros pregados sem cruz que, de olhos abertos, é um outro demónio da RR, e que não era meu. Postais guardados na gaveta das criações longínquas… os dedos a perfumarem as cartas que diziam tanto da verdade quanto a voz morta, de fome, dizia pelo telefone - “pouca terra, pouca terra”.

O professor Osório na locomotiva do metropolitano a vaporizar tristezas escondidas no sobretudo - “pouca terra, pouca terra” -, a moldar palavras com a voz rouca de quem sai da cama para o pregão de quinta-feira entre hortaliças e nabos na sala de aula - “pouca terra, pouca terra” -, a saber dar tempo aos desenhos, aos postais, às cartas do analfabetismo do RR a balouçarem nos ramos das árvores na janela grande da sala de desenho, na eminência de uma queda no chão dos da porrada - “pouca terra, pouca terra” -, a partirem-se em cacos. Os desenhos (o que é feito deles?) a transformarem-se em desobediência incontrolável: o coreto da banda plástica esculpido sob a forma de metropolitano, versão sardinha enlatada sem espinhas; os mafarricos com voz de fome dentro de uma incubadora de museu, de olhos muito abertos, na leitura atenta do inferno na poluição de uma cerveja; a lampreia de fato amarelo a disfarçar quedas de cabelo, num palco sujo de fanfarras de suor e a tecer mimos a uma plateia imaginária; o barro das palavras numa fuga para uma caneca de chã com letras gordas: I LOVE YOU.

(O professor Osório… o que é feito dele?)

Um mar de gente muda à nossa espera, gente fria, longínqua, a ler jornais no metropolitano, a bufar palavras e sudokus para o relógio do telemóvel sem rede. Gente que se abre e fecha como um fole de harmónio estragado; gente que se nos cola à pele no aperto cardíaco das toupeiras a esgravatarem túneis para um dia que seja feliz.

(O professor Osório conduz a locomotiva: “pouca terra, pouca terra”)

Gente triste. Gente sem tempo de fanfarras na velocidade de túneis escuros no calor do forno da RR a dormitar abandonado nos confins de uma terra quadrada de coordenadas sudoku. Gente triste de fato azul, de plástico quebrado, a espreitar por cima dos jornais e dos livros com os seus ridículos óculos sem lentes de nariz-batata de plástico e bigode postiço acoplados.

O professor Osório a engatar coretos de música à locomotiva e a fazê-los girar com a velocidade de um carrossel de fole estragado numa manhã rouca de quinta-feira: “pouca terra, pouca terra”.

(Sempre que se atrasava já sabíamos: “problemas na linha do Minho entre Porto e Barcelos: um coreto descarrilou não provocando danos de maior, apenas alguns instrumentos de plástico quebrados.”)

A banda plástica à nossa espera… algures entre os mafarricos da RR e o Cristo de braços quebrados, junto às hortaliças. O maestro na sua pose imortal de fato de grilo falante, de batuta apontada para o vazio, a dar-nos pautas em branco e a pôr-nos uns óculos sem lentes de nariz-batata e bigode postiço acoplados. O músico da tuba-a-sério a piscar-nos o olho para o fingimento, e nós, no calor do fato azul, a sermos novamente barro de ‘Ain Ghazal dentro de uma incubadora de museu. A batuta a voar ritmos de folhas a caírem das árvores coloridas de Setembro, a levantar chamas e fantasmas de Rimbaud…

Lève la tête: ce pont de bois, arquè ; le derniers potagers de Samarie ; ces masques enluminés sous la lanterne fouttée par la nuit froide ; l’ondine niaise à la robe bruyante, au bas de la rivière ; ces crânes lumineux dans le plan de pois – et les autres fantasmagories – la campagne.

… qual tridente de cornos espetados nas brasas incandescentes a trazerem-nos pesadelos por encomenda futura. O bombo a enervar-nos as tripas da voz morta de telefone sem rede, num túnel à procura de um único dia feliz. Os pratos de choque a esmagarem-nos o Setembro da folha em branco, as cartas perfumadas da ausência, a voz de barro frágil a dizer “pouca terra, pouca terra”, as hortaliças na neblina de quinta-feira a vapor.

Os coretos a descarrilarem na linha do Minho, os mafarricos vermelhos da RR a partirem-se em mil bocados; a incubadora a estalar no forno frio abandonado; os coretos num cenário sem cor do jornal de sudoku em branco, na tristeza simples de um brinquedo de natal estragado.

O professor Osório morto. Sobretudo azul escuro a tapar-lhe o rosto (tão parecido com o César Monteiro…) e toda a seiva de palavras a evaporar-se - “pouca terra, pouca terra”. A voz morta, a presença morta, a árvore da janela grande da sala de desenho morta. Os desenhos rasgados, os sonhos quebrados, os postais esquecidos numa gaveta do passado, as cartas perfumadas a caírem das árvores no mês de Setembro… O homem do sobretudo a ser novamente fantasma de olhos muito abertos numa incubadora acrílica de museu. A esculpir-nos pensamentos analfabetos no átrio das partidas e chegadas (da morte?) num carregado azul-escuro e num silêncio de batuta para a pauta em branco. O homem a gritar no pesadelo da locomotiva - “pouca terra, pouca terra”- a arrastar coretos de gente triste, anónima, vazia, à procura de um dia feliz à saída do túnel, do buraco da existência. Gente que sofre mais do que Cristos pregados na cruz num parto de quinta-feira de pregões, alvo de objectivas nipónicas numa filha da putice messiânica - autêntica feira de museu de gravata enrodilhada. Gente de pequenas cidades… e o professor Osório morto num enrodilho de sobretudo a atiçar-me labaredas com o seu tridente vetusto, batuta de água doce, a aprender na lentidão de outros tempos o nosso cair das árvores de barro no chão frio e húmido sem levar porrada de quem quer que seja. Nós na confusão formigueira das partidas e chegadas a deixarmo-nos conduzir pelas figuras diabólicas da RR rumo ao inferno citadino, de olhos bem abertos, para a velocidade do metropolitano a levar-nos em círculos ondulantes de carrossel de quinta-feira para um “pouca terra, pouca terra” desconhecido.