A mãe a levantar-se a meio da noite, a abrir a porta do quarto para os olhos de insónia: o corpo no aconchego dos lençóis brunidos, transformado em cinza, a respirar uma lentidão de partidas e chegadas de mil e um beijos esquecidos. A mãe a abrir o jornal de ontem e a perseguir a previsão de insónia num lavar de mãos à pressa. A lembrar-se de Ghazal na incubadora. A água a ficar suja, cinza húmida de lágrimas. A mãe a ver-se no espelho mistérios de ‘Ain Ghazal no nevoeiro cinzento de nove mil e quinhentos anos de incubadora, a perguntar-se quem é, a fechar os olhos para não ver a cama vazia, toda ela brunida em lençóis de viagem. A mãe a esquecer o jornal e o medo da insónia. A cinza a espalhar-se pelo chão e a tristeza da banda sonora de afectos a interromper a viagem do fantasma perdido sem ninguém à espera. A mãe a adormecer aos trambolhões num porão de avião em turbulência, a dar novamente à luz a dor do parto.
O senhor doutor a receitar comprimidos à mãe para os fantasmas num consultório todo ele cinza, fingindo escrever poesia nos papéis de receitas e em espaços em branco de revista barata. A cara suja de letras de jornal a fixar olhos no vazio e a piscar (finalmente) ao ritmo cardíaco de um trombone de uma banda sonora de afectos numa inauguração extraterrestre sete mil e quinhentos anos antes de Cristo.
O senhor doutor a viajar no tempo O “curioso pequeno” a colar hóstias no céu-da-boca, a rezar partidas e chegadas nocturnas pelo pai no altar do elevador para o terceiro andar direito. O “curioso pequeno” a deixar de acreditar em deuses, em naves espaciais, em promessas de sono pelo chá no antes de ir para a cama doente mas não doente. A acreditar, sim, no elevador parado no rés-do-chão a ressuscitar às tantas da manhã para o terceiro andar num ruído fantasmagórico de mecanismos doentios que ninguém ouve enquanto dorme. Ele ouvia, não dormia. As mãos a tremerem, a correrem para a casa de banho na insónia propositada de quem lê um jornal de diarreia (sem tempo de por os óculos) como quem atropela cinza para o check in dos sonhos. O senhor doutor a perguntar-se quem era, a fingir-se num interrogatório de polícia na sala de espera de um aeroporto vazio, onde o eco são as palavras e as respostas não são nada. O senhor doutor a escrever receitas contra fantasmas como quem dá beijos de despedida e a mãe a acenar ao fantasma sem bilhete (os fantasmas não possuem bilhete) e a correr apressadamente para o porão das ideias brunidas.
A mãe a aspirar comprimidos para fantasmas A mãe a abrir a porta do quarto já de dia, a janela, e a cinza a desaparecer através do cano do aspirador barulhento de sábado de manhã. Os papéis de receitas a arderem lentamente… a mãe a aspirar comprimidos para os fantasmas… fantasmas.
O senhor doutor a fechar a porta do escritório, a cobrir os móveis com lençóis brancos cuidadosamente brunidos, a olhar para a cidade e a ver nela um paul cinzento, nevoeiro cerrado e uma ideia fixa de ir para casa, fechar a porta do quarto, deitar-se de dedos entrelaçados no peito e transformar-se em cinza. O senhor doutor a pedir desesperadamente que não o tratassem por senhor doutor… a mãe a sorrir, finalmente. O senhor doutor de bata branca a transformar-se ele próprio num móvel coberto por um lençol branco, a proteger-se do pó, da cinza; a ser ele mesmo um fantasma de uma cadeira vazia, a deixar desmazeladamente crescer a barba, e ela branca, os cabelos brancos, tudo branco. O senhor doutor a virar os olhos para dentro da incubadora e a não ver nada
(Uma escuridão imensa, a ausência)
O senhor doutor a pôr a gravata como quem se pendura ao alto num ramo de árvore a fazer caretas (uma careta final) de agonia para alguém que não existe e a desejar o polícia da sala de espera e o fantasma do aeroporto vazio a cobrir-lhe o corpo com um saco plástico preto. O vazio do aeroporto a ser o vazio das respostas, o vazio das respostas a ser a língua de fora a ajeitar o nó da gravata debaixo de um lençol fantasma no seu pequeno escritório. A mãe a bater à porta, uma, duas vezes, e nada. Um silêncio de mãos entrelaçadas no peito e um distante abanar de árvore, de madeira viva a ranger os ponteiros dos relógios esquecidos na mesinha de cabeceira farta de livros e mais livros não lidos. A mãe a esquecer-se de si no aeroporto. A colocar uma gravata nas palavras, ela que à partida nunca saberia dar nós em nada, nem nos atacadores das botas ortopédicas receitadas pelo senhor doutor.
(Botas azuis escuras.)
As mãos nervosas, sujas, agarradas às grades. A mãe a ver o avião partir na sua lentidão parada rumo a uma incubadora planetária. As lágrimas que não correm… O aspirador barulhento a entrar pelo escritório do senhor doutor dentro, a desfazer receitas e palavras em cinza, pó, e a esmigalhar comprimidos para fantasmas. A mãe a sorrir quando o senhor doutor lhe pedia para não o tratar por senhor doutor: “muito bem, senhor doutor”. Os papéis a voarem pela janela, a gravata feita num nó impossível, o escritório que afinal era uma jaula mansa a receber feras para uma hóstia sagrada e os comprimidos a não produzirem efeito algum.
O senhor doutor com a sua bata branca de cativeiro: “tome o comprimido que isso passa”. E o António a sorrir de mãos entrelaçadas no peito, quase a empoleirar-se no ramo da árvore do nó da gravata. O António que o viu adormecido, o “curioso pequeno”, na bancada do pavilhão no sonho de arrastar malas para o check in do aeroporto, de microfone numa mão e angústia na outra: “toma o comprimido que isso passa”. O António, que nunca quis ser médico nem palhaço triste, a tomar comprimidos às escondidas no gabinete rodeado de móveis cobertos por lençóis brancos, fantasmas de ‘Ain Ghazal parados no tempo dentro do espelho de um museu. O António a dizer tanta coisa à mãe sem dizer, a esconder lágrimas como ela agarrado às grades do aeroporto depois de mil e uma partidas e chegadas nocturnas de lugares desconhecidos. Um nó de gravata…
O senhor doutor a tremer. O nó da gravata a sê-lo por dentro da garganta de tão apertado, o aspirador ensurdecedor a entrar-lhe pelo escritório dentro, a tratá-lo por senhor doutor enquanto lhe arrancava o pó dos móveis (tão cuidadosamente cobertos), da alcatifa dos rodapés poéticos das receitas, do sono na bancada do pavilhão, da bata branca pele de fantasma, e todo o ruído a devolver-lhe o silêncio do paul enublado, frio, denso, no arrepio do corpo deitado na cama a transformar-se em cinza à força de palavras.
A mãe a acordar a meio da noite, a abrir a porta do quarto, e a vê-lo lá deitado na protecção artificial da incubadora, a respirar em nós de gravata (“salvo!”) a arrastar malas para os sonhos. E ela a atravessar o espelho com comprimidos, a lavar as mãos sujas do jornal de ontem – “muito bem senhor doutor” – e a respirar fundo mais uma hora de insónia… no eco do aeroporto tão igual ao do pavilhão num vai e vem de partidas e chegadas de sabe-se lá de onde: “toma o comprimido que isso passa”.
Nessa altura já éramos cinza, figuras sem tempo de ‘Ain Ghazal , beijos brunidos nos braços da mãe a atirar sonhos para um futuro longínquo repleto de outros fantasmas que não éramos nós. Nessa altura, nesse momento, entrelaçamos as mãos, ficámos suspensos no vazio do aeroporto num eco de beijos do outro lado do espelho: dois trambolhões etiquetados em papel colante verde.