14.1.07

carrossel I

Somos a viagem. Somos duas malas-fantasma prontas a ser aviadas aos tombos, no porão de um avião, esbarradas uma contra a outra, num esforço de trombone de roupas, livros e substâncias que se nos colam ao corpo. Dois trambolhões etiquetados em papel verde colante a gravitarem em mil e uma perguntas, em mil e uma línguas diferentes, a deixarem-se levar num tapete rolante de afectos rumo a um lugar estranho de algas fora de água. Não damos beijos. Balouçamos as cabeças de um lado para o outro à procura de algo no branco vazio, no depósito de ecos de partidas e chegadas, imaginando segredos para contar entre esquilos e toupeiras, num jardim de ervas daninhas perdido na suspensão de uma babilónia qualquer.

Somos o cinzeiro a estalar em incandescência metálica na tentativa de apagar sonhos impossíveis em obediência religiosa à descida de temperatura escarrapachada no boletim meteorológico do jornal de ontem. Os nossos olhares descobrem-se na olheira-insónia da plataforma longínqua do grande bicho mecânico de enormes asas. Imagens-flash atravessam-se de repente na combustão inútil do aeroporto vazio e chegam-nos ecos da gare de partidas e chegadas nocturnas. O passado transforma-se em cinza… há gente aqui e ali, fantasmas, gente que não tem ninguém à espera, gente que se abraça como se estivesse debaixo da terra entre esqueletos de mãos entrelaçadas no peito.

Somos também essa substância morta invisível que se nos cola ao corpo e nos entrelaça as mãos no peito. A mesma substância que se desfaz na incandescência de um cinzeiro nu à velocidade de sonhos e viagens a um outro mundo desconhecido (mais desconhecido do que este). Vemo-nos no espelho fosco da casa-de-banho vazia, no nervosismo doentio de lavar as mãos: figuras sem tempo de ‘Ain Ghazal em incubadoras acrílicas de museu: olhos abertos à visão futurista de sete mil e quinhentos anos antes de Cristo como se o mundo fosse fruto do desencontro temporal entre deus e uma estúpida nave de espacialidade impossível; olhos de susto emergidos de olheiras-insónia de quem não dorme há nove mil e quinhentos anos e acorda no embalo do porão de um avião, aos trambolhões por dentro, entre algas mortas, tentando, no abafo do trombone, não quebrar as ideias tão cuidadosamente brunidas pelas mãos da mãe. E nisto, a pequena estátua a olhar-nos de dentro de uma incubadora acrílica de museu abafada, sem palavras, a reflectir flashes de fama nipónica. Flashes de câmaras fotográficas em forma de caixão, a arrancarem as almas dos objectos. A retorcerem filhas da putice na impressão digital da memória impossível. A arrastarem malas para o check-in de um funeral de ecos e bancos vazios. A descuidar a agitação da cinza debaixo dos pés.

(O aeroporto é já todo ele um cinzeiro de ecos incandescentes, de insónias imprevistas no boletim meteorológico do jornal de ontem, de flashes nipónicos na combustão de almas.)

Somos a cinza. Cinza que possui mais gravidade do que nós. Nós que não damos beijos, que já nem fazemos da cabeça um cata-vento perdido na brisa indecisa de partidas e chegadas nocturnas entre gente sem ninguém à espera. Nós a ver fantasmas. Na pressa do espelho sujo de quem lava o nervoso das mãos e apaga com o bafo olheiras de insónia, enquanto a cinza fria nos esconde os passos e nos rouba o beijo de despedida. Nós vistos espectros de ‘Ain Ghazal no outro lado do mundo (do espelho) através de olhos que nunca se fecharam em nove mil e quinhentos anos de existência acrílica de museu. Espectros de Ain’ Ghazal. Olhos que não se fecharam mesmo depois da dormência de dois mil anos de hóstias sagradas a encherem de lágrimas a cinza dos dedos entrelaçados, na protecção da caixa de esmolas do aeroporto. O fantasma do outro lado. Em combustão de inferno entre quatro placas acrílicas. E nós a fugirmos. A arrastarmos as malas pela cinza em direcção ao check-in dos sonhos, a sufocarmos no pó de cinzas levantado, sem darmos beijos (como se dar um beijo a um cinzeiro, fosse como dar um beijo a uma mulher que fuma), a esbarrarmo-nos contra o passado em flashes de turbina sem dizer nunca adeus ao fantasma de ‘Ain Ghazal sentado na sala de espera do aeroporto, de olhos muito abertos, ser-espelho do nosso nervoso de mãos lavadas em correrias nocturnas para a casa-de-banho durante a noite de partida.

Nós. SIM, NÓS duas malas etiquetadas carregadinhas de objectos afiados a serem levadas num tapete rolante de afectos rumo a um lugar estranho do outro lado do espelho. Nós no vazio a preto e branco a quebrarmos espelhos para a banda sonora do poeta desconhecido

(aquele que o fantasma foi sempre)

a entregar palavras escritas no vazio, a bocejar ecos nos nossos beijos mortos, e a chamar isso arte, com todas as palavras de sempre.

Somos a fuga A fuga a desfazer-se em cinza (e os sonhos com ela) e o check-in a ecoar no nervoso das nossas mãos sujas de jornal do ontem para um porão de avião, de barco, de nave espacial, de seja lá o que for, a esbarrarmos num trombone de afectos que se enrodilham à medida que as mãos das mães de entrelaçam na lentidão incandescente dos beijos.