Despejei o cinzeiro. Dei o fumo à infelicidade durante as horas de chuva de uma tarde perigosamente suicida: uma história que se prolonga ao ritmo de um espantalho incapaz de apertar um gatilho, ainda que de plástico duro, imitação metálica dos sonhos. E nada… Incendiei uma tristeza gasta, húmida, absurda, e esperei que o olhar fixo na janela das gotas de chuva me levasse para uma solução lenta e pesada: a existência pragmática. Já não possuo nervos em filosofias… descanso. O corpo é todo ele de uma cinza sólida e as horas já não lhe pertencem. Pertencem a um paul citadino escondido nas plataformas subterrâneas dos prédios. A quererem-me na cama escura. A segredarem-me lembranças imperceptíveis de viagens repetidas nos loucos fins-de-semana fora daqui. Loucos fins-de-semana fora daqui. Fora daqui.
As imprudentes beatas, agora amontoadas numa caixa triste, incendiaram-me o corpo gasto, vazio, cansado. Roeram-me as unhas até à dor nervosa de tiques de cuspideira, daquelas que amaciam a carne suada, quente, a pedir ao fundo da terra o intestino da alma de todos. Abri os braços a deus para lhe dizer que ele não existe. O feedback veio em electricidade, pequena grande maravilha ultrapassada.
Num Outubro de chuva ouvia-se o eco distante dos aviões. Helicópteros suspensos na invisibilidade dos nossos telhados molhados, húmidos, protectores maternais do anti-stress urbano. Aeroportos de tapetes de ioga voadores a condizerem números e letras nas paredes sujas. Os dedos das mãos tremem. Todo o braço é uma dormência impossível. Durmo em posições esquisitas. A tentar abafar sonhos debaixo de mim, eu um tipo gordo e pesado embrulhado num pijama negro a respirar almofadas. A acordar a meio da noite numa cabeça que não é a minha num filme de pesadelos de olhos abertos. O suor a congelar as mãos sujas. O silêncio. O silêncio. O sono barulhento, nervoso, povoado por imagens de cores quentes e demónios brancos, fantasmas não identificados da realidade. Abri a persiana e despejei o cinzeiro.
Não há sol nos dias de infelicidade. A cidade é um paul longínquo embriagado em nevoeiros e distâncias. Apertamos as mãos mas não vemos caras. Dizemos bom-dia sem lábios e bocas. Ouvimos apenas o eco húmido das palavras. Imaginamos sorrisos que não existem. Construímos umbrais, túneis subterrâneos para um outro fora de nós contente pela ausência de identidade e de defeitos podres.