6.5.03

o banquete

«O acto de comer fixo nas mentes…

Tristemente, desapareceu mais uma alma e há que dar alguma utilidade ao que resta. Seria completamente ridículo enterrar algo que já não vive para unicamente alimentar os vermes. Diferentemente, o corpo morto será incorporado pelas pessoas mais chegadas. Só assim se alcançará a continuidade.»

O corpo estava deitado, completamente imóvel, na sala semi-escura. Dois indivíduos vestidos de branco entraram. Conversando baixinho à medida que se aproximavam lentamente observaram, sem minúcia, o aspecto do defunto. Segundo as informações que obtiveram alguns minutos antes, tratava-se de um indivíduo de aproximadamente 50 anos que tinha falecido devido a uma queda. Tinha sido um bom pai de família, honesto e trabalhador e, também, portador de valiosos conhecimentos. Infelizmente, devido ao acontecimento imprevisto, não teve tempo para elaborar um testamento para se auto-partilhar, mencionando as pessoas a quem ele gostaria de se servir. Assim sendo, essa tarefa complicada estaria a cargo de juristas competentes, segundo a complexidade de leis que regulavam o direito das sucessões.

J. não se importava minimamente com isso. Já há mais de 20 anos que exercia aquela profissão e nunca se interessara por tal, nem mesmo por curiosidade. Limitava-se a fazer os cortes e as amputações devidamente estabelecidas no relatório de morte elaborado pelo advogado de família. Com um curriculum invejável, chegou várias vezes a exumar corpos, por vezes, já em início de putrefacção, e, mesmo assim, conseguia com uma precisão quase absoluta fazer as divisões exactas. Tinha princípios muito rígidos: as pessoas que enterravam os corpos não deveriam ser consideradas inimputáveis por serem portadoras de uma anomalia psíquica. Eram verdadeiros criminosos e deveriam ser severamente punidos pelo que fizeram, o que implicava na maior parte das vezes a sua condenação à morte.

T. era bastante jovem. Ainda inexperiente, orgulhava-se de ser o braço direito de J. e a sua evolução era notória de dia para dia. Seguiu as pisadas do pai por obrigação e não compreendia. Há já algum tempo se perguntava pelo porquê de tal ritual. Seria muito mais fácil enterrar os corpos mortos, apesar de ser considerado um acto criminoso. Sinceramente, não se importava que o seu próprio corpo fosse objecto de crime aquando da sua morte. Já nada sentiria. Além disso, parecia-lhe um verdadeiro absurdo depositar o que é nosso, e que sempre foi nosso, no corpo dos outros. Acabamos por não construir nada por nós próprios ao retirar a liberdade de escolha de vida a quem come. A única vez que participou num banquete, comeu o cérebro do pai adquirindo, assim, todo o conhecimento para o exercício da sua profissão. Sabia que J., por ser muito mais velho, já tinha participado em muitos banquetes, mas isso não o incomodava. Aliás, se não o obrigassem, a sua profissão seria eventualmente outra. Sempre quis ser jardineiro. Mas, não pôde recusar o banquete da morte do seu próprio pai. Logo que tivesse a oportunidade de participar no banquete de um jardineiro desconhecido, faria tudo para, ilegalmente, falsificar o relatório de morte de modo a ter direito a comer o cérebro e o coração. Sim, porque para ser jardineiro é necessário, acima de tudo, ter coração.



Era a primeira vez que fazia o corte inicial. Seriamente, com o bisturi fez um corte de orelha a orelha por detrás da cabeça do morto. Enquanto desfigurava a pessoa, puxando o couro cabeludo até ao maxilar, J. observava atentamente o seu procedimento chamando atenção, ocasionalmente, para qualquer erro que viesse a cometer. Mas, T. também tinha umas boas mãos como o seu pai e realizou a primeira tarefa com todo o cuidado necessário. Logo de seguida, aproveitou e, segurando a língua que ficara pendurada do lado direito do pescoço, cortou-a guardando-a de imediato no recipiente adequado.

J. já tinha feito o corte seguinte, do peito até ao abdómen, quando o telefone tocou. T. limpou apressadamente as mãos sujas de sangue e foi atender: «Sim?!… Não, não. Aqui é a sala de autópsias… Por acaso, não sei… Experimente ligar para a sala de criação artificial. Talvez lá lhe dêem as informações de que necessita… De nada… Com licença…».

Quando regressou para junto do corpo, as costelas já tinham sido afastadas. Os pulmões repousavam em cima da banca e o coração nas mãos de J.. Pegou na serra eléctrica e começou a serrar o crânio. Alguns espirros de sangue e uma carapaça craniana já balouçava em cima da banca como se fosse metade de um coco. E, enquanto retirava violentamente todas as vísceras de dentro daquele corpo gorduroso, imaginava-se ao sol, a colher flores de todas as cores e a contemplar a natureza e todas as suas leis.