5.5.03

a viagem de regresso

O dia começou triste mergulhado em horas não dormidas. Dentro de uma máquina, transportava o seu corpo cansado e desordenado. Chovia levemente… A viagem rápida e inquieta parecia abandonar todo o seu aborrecimento típico para se transformar numa verdadeira viagem no tempo. Tudo estava condensado num bilhete normal Alfa 10.40 na ameaça de se perder na lentidão da manhã ausente. Uns olhares vulgares fitavam o horizonte num eco abandonado pela tristeza

Muitas caras desconhecidas…

Anónimas…

Vazias…

Perdidas na imensidão do silêncio…

As letras lunáticas permaneciam virgens num desespero de Ontem.

O imprevisto esperava-o… Na ressaca de palavras incoerentes alimentava o desejo de pernoitar no seio de uns lençóis ofegantes aprisionados no tempo perdido. Mas, o Passado fora abandonado a si mesmo e sepultado na

amargura da não experiência. Enquanto isso, devorava o livro emprestado pela loucura da liberdade. Esmagado contra uma parede e impedido de dizer o que quer que fosse, viajava com a mente semi-acordada do sono sem sonho.

Foi ele que abandonou o espaço. Foi ele que abandonou o enlace. Agora, ausente, tudo é diferente. A virgindade tropical converteu-se numa amálgama sem fim de tijolos empilhados… E as histórias tornaram-se violentas e inesperadamente imbuídas num misto de inconsciência e tesão. Depois…

Depois regressava. Regressava lentamente para o tédio dos dias que não são dias. Acima de tudo, permanecia a entrega solitária, o querer regressar ao nada que lhe pertencia, o querer viajar eternamente sempre no mesmo sítio.

O lixo das estrelas continuava a ser precioso. E enquanto se desenrolava uma vertigem fugaz na velocidade da máquina em sentido inverso as pálpebras fecharam-se… e tornaram a abrir.

Fecharam-se novamente e esqueceram-se de parar na altura certa. Continuou… abraçou o Infinito e nunca mais acordou no mesmo corpo.

«Porquê que as coisas quando estão longe ficam tão pequenas? Há um ruído ensurdecedor em cada um de nós e uma beleza surda que nos aconchega. Pernas doces que alimentam passos indefinidos… desencontros embriagados… amores já velhos e caducados… sons estranhos e malucos… vertigens! Vertigens temporais… em tudo há um sonho. Apenas um sonho…»