Cada viagem é uma doença nova
Uma vertigem para uma espécie de formigueiro televisivo
Uma apropriação indevida do nosso corpo enquanto nos distraímos com a paisagem
O fumo invisível entra pelos poros da carne e espalha-se suavemente pelas células amarguradas e cansadas
Em breves instantes estaremos deitados no relevo reencontrado da vida sentindo tudo aquilo que nos abraça no escuro
Na viagem distribuíram-se lenços brancos. O primeiro passageiro agarrou em dois (guardou um em cada mão). Mal lhes tocou, transformaram-se! O primeiro, que guardava na mão esquerda, ficou vermelho como se estivesse manchado de sangue. O outro, que guardava na mão direita, começou a ficar sujo até enegrecer completamente.
O primeiro passageiro já sabia… Já sabia que, sem querer, iria amachucar o lenço vermelho durante horas e horas. Mas, compreendia. Enquanto isso observava o lenço negro e sussurrava…
…
[O silêncio tornou-se uma exigência peculiar. Apenas dessa forma o pensamento iniciou a etapa de derretimento de que seria alvo passadas algumas horas…]
…
As mãos seguravam os dois lenços como se segurassem silêncio. Apertavam-nos com força libertando suor ao mesmo tempo. Levavam-no à mente e deixavam-no escorrer pelo corpo até mergulhar na sujidade das coisas.
Com a mão esquerda sempre fechada, verificou que a outra desaparecera na confusão da liberdade. Mas, sabia que, mais tarde, se encontrariam no vazio e se abraçariam finalmente!