27.1.19

Um texto antigo (2014-2015)

O mundo começa aqui, neste lugar, neste preciso ponto no mapa. Aperto as mãos com força e agarro todo o ar possível. Fecho os olhos. Escuto as pessoas ao longe, os passos, as vozes, duas bicicletas. Ao perto há uma árvore feita de pássaros ruidosos. São papagaios ou periquitos. Não são deste mundo, deste lugar, deste preciso ponto no mapa. Possuem cores vivas. Demasiado berrante para esta cidade cinzenta e fria. Terão fugido de um jardim zoológico? Estarei a ouvir bem? Sao papagaios. Vejo-os agora. Ou periquitos. Não sei distinguir bem. Do outro lado do rio há um denso arvoredo. Deste lado há casas e uma árvore ou outra. O preciso ponto no mapa é isto tudo: o outro lado do rio, o arvoredo, este lado, as casas deste lado, estas poucas árvores ao perto, uma com papagaios, estas poucas árvores ao perto, uma com papagaios impossíveis nesta cidade cinzenta e fria. Todos os outros sons que escuto são sons de água, pequenas ondas fluviais nas escadas de pedra que dão para a água suja, barrenta e espessa. Água que vai dar ao mar, que fica numa direção destas, não sei bem qual. Não é a primeira vez que aqui venho. Parei neste preciso lugar já várias vezes, mas confesso que tudo estava sempre diferente: as águas não eram as mesmas, a cor das águas não era igual a esta, suja, e a maré nem sempre era toda esta água nas escadas de pedra e via-se ao longe um areal de gaivotas e corvos. Por vezes vê-se a ilha e o mistério das suas árvores com aves a pairar nela como uma nova descoberta, um outro clima húmido feito de lama e algas movediças. Há também, raras vezes, uma neblina que desce às águas ficando tudo muito difuso e perto de um quadro de Turner. O sol é apenas uma mancha e todas as árvores do outro lado são de uma escuridão balsâmica. O dia torna-se abstracto e os sons são feitos desse mesmo visual indefinido, como se a banda-sonora fosse sempre um nexo de causalidade entre os pensamentos e aquela paisagem de neblina. No jardim de uma das casas, há um cata-vento; uma caravela negra a apontar dúvidas em movimentos giratórios indecisos. O som metálico enferrujado do cata-vento possui o ritmo da ondulação e nunca é igual. Esqueço o livro que tenho na mão e escrevo num papel dobrado que tenho bolso. Escrevo uma carta para alguém ainda sem nome, embora já não se escrevam cartas. Começo um parágrafo sobre o clima, este nevoeiro que me deixa adormecido, e parto para a descrição das cores como se estivesse a ver pinturas de um artista célebre. Imagino também uma música: uma guitarra clássica a repetir frases com as ondas, ondulações musicais que arquitectam espaços, sejam eles uma ideia de casa, uma rua, um bairro, um parque, ou mesmo uma montanha. Aqui não há montanhas, nem árvores a arder em dias quentes e secos de verão. Isso é passado e o passado não interessa. Volto para o papel e desisto da carta. Rasgo-o enquanto tenho ainda a imagem das montanhas a arder na cabeça. Um fumo negro dos diabos mais poderosos. Como é possível ter estas imagens de fogo na cabeça quando à minha frente é só água, nuvens e nevoeiro? Faço a pergunta à primeira pessoa que passa e ela fica na dúvida se eu sou um poeta ou um maluquinho. Nem eu mesmo sei. Aos poucos desisto de saber e a paisagem é só cinza e matéria ardida.

25.1.19

O dia que começa é o mesmo dia que acaba

Seria muito mais importante conseguir atravessar este mar e abrir os braços bem alto, esticar-me todo, libertar as energias sonâmbulas e erguer-me do escuro, do que cumprir a tarefa de estar presente todos os dias neste abecedário de poemas futuristas. Encontro nos livros um pouco do sossego que preciso para respirar melhor o tempo rarefeito e sei que o meu espaço é algo a gravitar no infinito destas palavras atrasadas. Levanto a cabeça e espreito o interior das casas, uma colectânea de cenários de filmes mundanos e de conversas secretas que se dissipam no tempo. Mas eu regresso à ideia de mar aberto, qualquer coisa imensa que me faça voar um pouco nesta noite.

11.1.19

Dois relógios, nenhum deles certo

O mundo dos relógios atravessa todos os recortes dos filmes. Uma galeria-cinema mostra-nos esta coisa formidável que é o tempo e não demoramos muito tempo a absorver a essência da peça artística. Não tem nada a ver com entretenimento, apesar de estar camuflada num zig-zag de sons, músicas e justaposições castiças. A visão, a mensagem, é algo muito mais profunda do que parece. Não temos outra forma de encarar esta passagem de tempo que nos desintegra aos poucos.

5.1.19

Os livros dentro da mochila

Descobrimos um edifício ao fundo da avenida. Numa esquina de prédios, cruzamento sonolento em dias de trabalho. Lá dentro encontrámos livros perdidos e uma exacta réplica das mobílias e das palavras. Mais um boneco na parede, colorido em poucos minutos. Cá fora já era noite a preto-e-branco. As cores ficaram todas lá dentro no papel.

4.1.19

Do outro lado do rio

As luzes da minha cidade são o movimento entre uma realidade que é só minha e um sonho que é de toda a gente. Atravesso para o outro lado sem saber exactamente quantos passos é que terei de dar fora da minha rotina. É noite rara. Uma fuga a todos os outros dias todos do ano.

3.1.19

Os flancos da viagem

A noite em movimento. O meu relógio dentro do tempo de chegar a casa e um livro aberto nas primeiras páginas. Humedeço os dedos para entrar neste mundo e tudo o que tenho são as páginas sujas de um jornal. As duas miúdas sentadas à minha frente são muito mais desta cidade escura do que eu. Eu sou dos prédios lá ao fundo, destas paisagens urbanas, mas elas são deste mundo nocturno que vai para o outro lado do visível.