4.4.11

Ao sétimo dia chovia. Encontrámos um comboio perdido em Nine com destino a Porto S. Bento e fomos direitinhos aos Clérigos. Enganámo-nos na rua mas à segunda lá demos com A Vida Portuguesa. Uma loja enorme, no primeiro andar, mesmo junto à livraria Lello. Para nós que nascemos em finais dos anos 70 - a J. no ano que o dito punk britânico nasceu, eu no ano em que ele morreu, ela punk de gema, eu pós-punk às claras - foi algo especial. Encontrámos coisas que estavam de tal maneira perdidas nos confins da infância que qualquer choramingas deixaria cair uma ou duas lágrimas de alegria. Imaginem o que é, de um momento para o outro, terem na mão aquele lápis com a tabuada e aqueloutro com a história da carochinha e do joão ratão que morre no caldeirão. Imaginem o que é começarem a encolher e a encolher, as roupas enormes, e a professora Alda à vossa frente a ensinar letras e números, a explicar a númeração romana, os rios de Portugal, as montanhas, as distastias e todos os cognomes dos reis portugueses, a pecuária, a pastorícia, as indústrias, a roda dos alimentos, todos os caminhos-de-ferro e até, veja-se lá, onde ficavam (se é que ainda ficam) as minas da Panasqueira e da Borralha. A professora Alda a perguntar-me tudo e mais alguma coisa que me saía da ponta da língua, excepto quando atirou ao pequeno caixa d'óculos um 'porque tens os dentes todos podres?'. Ao que a resposta, segundo contam, teve tanto de embaraço como de criança perdida no meio daquela canalha toda em risota: 'porque a minha mãe me dava chocolates e eu gostava'. A fazer lembrar aquela anedota de catecismo em que o filho se vira para o pai e pergunta 'ó pai, queres bolos?' e o pai 'não' e o filho logo de seguida 'então pergunta-me a mim'. Aposto que a professora ainda se lembra disso e se ri sempre que encontra um lápis com a história da carochinha e do joão ratão que morreu dentro do caldeirão.