Já deveria passar da meia-noite quando acabei de ler o "ensaio sobre a
cegueira". Faltavam poucas páginas para o fim e os olhos aguentaram-se
abertos até à última palavra. É um livro interessante. Talvez mais
interessante na altura em que foi lançado do que agora. Mais estranho,
talvez, ler sobre um mundo cego numa altura em que queríamos ver mais.
Metade do livro é chata - uma visão gasta sobre o holocausto,
cansativo, repetitivo. Nele bebe os estados de sobrevivência e
irracionalidade e quase que barateia a vivência literária. Não
explica, nem preenche, aquele espaço mental que vai da razão ao
instinto, nem questiona o absurdo da condição humana para lá do óbvio.
A meio, o livro ganha outro alor. Há uma espécie de luz que atravessa
as conversas. Constróem-se pequenos mundos dentro delas e dentro
desses há outros mais espirituais. É aqui que o leitor repara que o
mundo imaginado pela leitura se torna o mesmo dos cegos e o atravessa.