Durante uma semana inteira não existiu tempo para o depois. Hoje foi a palavra de ordem. Só hoje. O hoje das viagens de comboio, das tarefas em catadupa, das conversas rápidas entre um café e outro. Em média, por semana, passo 12 horas em viagem. Não todas, mas muitas delas são entregues à leitura. Por isso o tempo não é dado como perdido. Mas se tivesse de conduzir diria que sim. As manhã têm sido frias e chuvosas e parece que os comboios também apanham constipações. Demoram-se nas curvas, tossem, ganham catarro nos pulmões. É o que dá andarem sempre a abrir e fechar as portas. Correntes de ar não fazem nada bem. Depois é aquele calor imenso dos subterrâneos em contraste com a ventania das plataformas. Fica-se sem perceber se tiramos o casaco ou não, ou o cachecol, ou o chapéu, o gorro. Como é que será isto durante a noite quando os comboios vão dormir?