26.1.11

Agora que eu não tenho a faca na mão, conta-me como é que foi. Como é
que abriste a porta e tiveste a reacção imediata de dares um primeiro
passo no escuro. Meu deus, tanto silêncio! Tanto musgo nas palavras.
Põe as mãos na mesa. Esquece a faca. Faz de conta que eu te invento,
que és o personagem principal no meu livro. Diz-me que também tens
sonhos, que por detrás dessa cortina existem alguns quadros coloridos
nas paredes da casa abandonada. Afia a faca. Parte o pão com jeito.
Come devagar. Explica-me onde tens os pensamentos. Explica-me de onde
eles vêm que eu não entendo o que dizes. Dá-me um alento ao menos para
que eu não tenha de cortar o que dizes com a faca a vida toda. Tenho
mais que fazer com ela. Tenho viagens para fazer, muitos lugares novos
para escutar, muita gente para conhecer, muitas línguas, muita coisa
negra para queimar nas mãos enquanto escrevo. Para que não ardam cá
dentro. Não te vejo. Apenas te ouço em palavras brutas que te saem da
boca como lâminas, às vezes petardos mudos, cada vez mais
enferrujadas. Lâminas que já nem cortam. Conta-me como foi. Fa-lo por
escrito se preferes que eu fico aqui a olhar para a janela. A ver
gente sem nome, sem face, sem corpo distinto, a vaguear como fantasmas
perdidos num labirinto de corredores. E eu lá fora a ver pássaros. Uma
gaivota que bica um pato pequeno. Uma garça que já não está cá. Uma
avó que já não está lá. Explica-me. Agora que eu não tenho a faca na
mão explica-me porque é que ninguém fala comigo, porque não falas
comigo, porque mesmo que falem comigo não me dizem nada. Porque é que
depois de um dia sem tempo para respirar, sem espaço para tecer meia
dúzia de palermices das minhas, a merda deste comboio não anda e nem
uma palavra do motorista. E tu? Porque é que não andas? Porque é que
não navegas quando abres aquela porta? Porque é que não levas também
esta gente toda dentro de ti e as vais deixando aos poucos em cada
estação e lhes escutas os segredos? Levanta a cabeça. Não tires os
olhos desse pão que te alimenta. Esquece a faca. Já não tens de cortar
nada. Tens é de fazer com que a merda deste comboio ande.