18.2.07

Temos o infinito nas mãos:
Contrabaixo de jazz no domingo sem sol,
A respirar o pó ainda húmido de um carnaval ausente.
(Frases longas)
Na parede do quarto Dürer a preto e branco.
Um frio de espadas a atravessar janelas fechadas:
MELENCOLIA.
Sussurros complicados em confronto
com o ruído televisivo das manhãs de pequeno-almoço.
Nervoso alegre ao ver-me no escuro de Berlim
Alimentada a desenhos e fotografias.
(fotografias)
Nesta época de descobrimentos divido o mundo em dois
(mundos):
A música e a literatura.
Em nenhum deles habito.
Somos fantasmas.
Uns dos outros.
(«mela, mela, mela, mela, melancolia»)
Um loop de outros tempos…
O passado morto embrulhado em farrapos,
Sons já demasiado antigos:
MINGUS, MINGUS, MINGUS, MINGUS, MINGUS
(cinco)
Circos abandonados, vazios, palhaços tristes.
A noite é um candeeiro de luz fosca
A iluminar um quarto quase atelier.
Desenterro ideias da pouca luz para as matar de novo
Entre pensamentos desesperados.
(a escrita, aqui, é diferente)
Sou duas mãos que tremem no desamparo de nada
Terem para agarrar, trabalhar, tocar.
Um esqueleto esquecido na turbulenta viagem
Até ao centro da Terra.
Já sei o que é a morte: é ser uma fotografia
Numa lápide,
De sorriso a preto e branco…
(morte=fotografia)
O abandono das confissões ridículas de diário
Libertam-me.
Já não tenho outro para a conversa, nem depressões,
Nem ouvidos de padre no papel…
Tenho-te em páginas e margens.
Nuvens e neblinas que voam à velocidade
Do abanar do leque
(câmara lenta)
Conversas de cama: livrinhos para a morte.
Tecidos de pele e escama a cobrirem
Papéis de palavras confusas.
Sede do não ter.
(não ser)