11.11.03

Ligaram a máquina e iniciaram o processo de desintoxicação das palavras. Palavras com anos de amor e ódio. Unhas de cor mergulhadas num líquido espesso atiram-se à primeira manivela. Fazem graduações no papel amarrotado e lançam as pevides para um recipiente próprio. O processo inicia-se com o carregar no botão vermelho. A primeira palavra obedece. A segunda também. E se a primeira e a segunda obedecem, todas as restantes obedecem também. Obedecem à rigidez da máquina e reproduzem-se. A desordem dos pensamentos desaparece. E, cada vez mais, o corpo cambaleia e os olhos apodrecem na espera. Mergulhados em cor, as palavras vão saindo. Sem querer (de qualquer forma) apodrecer também. Esvazia-se o papel ao preencher-se o papel. E quando o trabalho se completa o cérebro descansa e torna-se um receptáculo viciado à espera de mais palavras novas, desordenadas e impacientes. O ruído dispersa a negatividade. Mas, ao mesmo tempo, ensurdece. Positiva uma situação nada confortável. Pelos menos, enquanto as palavras entram em combustão e se dispõem em colisão permanente. Os olhos adormecem com a mistura de tinta… acontece um acidente. A máquina estoura e as palavras entram numa rebelião perdida nos confins do espaço. Impossível de as chicotear mais uma vez…