5.7.13

corte e cose 2

Tudo aquilo que eu queria ouvir era o vento nas árvores. O vento nas árvores como ondas de mar na praia. Sentado à mesa, de olhos postos no prato, talheres pousados na borda, a ouvir o mar lá fora. Mar que não é mar. Mar que são ramos carregados de folhas a agitarem-se como água salgada ao vento. As vozes na cozinha não são mais do que as conversas mudas entre pescadores. Gestos de árvore. E eu não sou mais do que uma árvore de braços caídos, um salgueiro-chorão talvez, a levar garfadas de comida à boca como quem dá migalhas aos pássaros. As palavras faladas quase não saem porque, quando se é árvore, a pele endurece e os lábios contorcem-se dificilmente para um sorriso. Depois, tudo se amontoa, crescem pilhas de coisas por dizer, coisas já livros, coisas impossíveis de dizer com a boca. Só muito mais tarde nos apercebemos que quando se é árvore é porque não se escreve. E aqui, escrever é agitar os braços como ramos e pintar palavras nas próprias folhas, na pele.

  1. Friends Of Dean Martinez - Under The Waves 
  2. A Winged Victory For The Sullen - Steep Hills Of Vicodin Tears 
  3. Dirty Three - Hope 
  4. Flim - Given You Nothing 
  5. Mountains - Bay 
  6. Tape - In Valleys 
  7. Esmerine - Little Streams Make Big Rivers 
  8. Rothko - Roads Become Rivers 
  9. Stars Of The Lid - Humectez La Mouture 
  10. David Torn - Miss Place, The Mist... 
  11. William Basinski - dlp 1.3