17.12.13

Eu quero escrever uma crónica porque quero pensar no futuro. Quero ter uma ideia, ainda que muito vaga e abstracta, de que vou fazer a minha vida sentado em frente a uma secretária, ou de pé como o Pessoa, com um olhar petrificado na folha em branco. Toda essa vertigem no vazio atira-me a uma erupção de palavras e gestos que me ficam entaladas nas mãos todos os dias. Porque não tenho tempo, porque não tenho espaço, porque não tenho sonhos. Gostaria de contar histórias, ensaiar textos insurrectos, morder a distância cultivada entre mim e os espaços deixados em branco. Textos que ainda podem ser vivos.

O que fazer?

Vontade. Desligar todos os aparelhos da distração ou usá-los a favor do ofício. Não perder tempo com coisas nada importantes (o que é que pode ser mais importante do que isto?) e ter um instrumento/objecto só para a arte. A publicação deve ser uma outra história. Tem de saber esperar pela impressão, pelo momento, pelo exercício lento e demorado de um livro, pela espera. A divulgação é um outro assunto. Primeiro é preciso a obra. Depois a coragem de a enviar pelo correio para outro sítio e esperar por uma resposta. 

Porque é que os métodos hão-de ser diferentes?

É uma espécie de trabalho pela calada. Um obrar secreto para com os nossos pensamentos e ideias. Uma espera pelo momento certo, pela hora certa, pela ocasião em que podemos dizer: já agora, tenho isto pronto, a sair da gaveta. Saber esperar é um primeiro grande passo. Saber sintonizar é outro. Saber desligar aquilo que não interessa é ainda outro. Há dias em que os sonhos ficam turvos e um poço de tristezas. Mas nada resta senão: ESPERAR, SINTONIZAR e DESLIGAR.