Lembrei-me de abrir o Livro do Desassossego e tentar encontrar o parágrafo quando o deixei quase quase terminado. Encontrei apenas um marcador que não era o meu, um pouco mais à frente ou atrás de uma vaga ideia de o ter algures nas páginas 280 e tais. Leio algo a propósito:
"Tenho principalmente sono. Não um sono que traz latente, como todos os sonos, ainda os mórbidos, o privilégio físico do sossego. Não um sono que, porque vai esquecer a vida, e porventura trazer sonhos, traz na bandeja com que nos nos vem até à alma as oferendas plácidas de uma grande abdicação. Não: este é um sono que não consegue dormir, que pesa nas pálpebras sem as fechar, que junta num gesto que se sente ser de estupidez e repulsa as comissuras sentidas dos beiços descrentes. Este é um sono com o que pesa inutilmente sobre o corpo nas grandes insónias da alma." (465)