15.10.13

Ler no presente

Talvez os sonhos para serem sonhos tenham de estar longe da realidade, ou de certas realidades. Às vezes, não sei como viver certas coisas profundas. Deposito-as em camadas e tento com que elas nunca se intersectem. O dia-a-dia não resolve o permanente pensar no passado (será que vivo mais o passado do que o futuro? Nunca sei muito bem. Construo um presente, uma estrutura que creio sólida, mas não sei que muralhas são estas que me rodeiam, se são feitas de coragem, força, resistência ou apenas pura distância. Talvez seja tudo apenas uma questão de ter sonhos comigo e não deixar que eles se abalem nunca. Somos aquilo que vivemos, seja esse viver o alimento, a música, a leitura ou as pessoas que nos rodeiam.

"The question of a speculative realignment with dead family - with 'difficult' fathers or mourned mothers, lost brothers, dead twins, absent friends, longed for sisters - resonates all down our days", escreve Ian Penman no texto On The Mic publicado pela WIRE em Undercurrents. Apareceu assim vindo do improvável uma frase sucinta para os nossos pensamentos dos dias mais cansados. A febre da ausência e da dor que nos acompanha. Um sobe e desce imprevisível que nos agarra a esta de ideia de raízes soltas, cortadas, ou simplesmente inexistentes. Vem de um livro sobre música, som e tecnologia, onde tudo junto soa a poesia e filosofia.

No mesmo texto descubro a noção de otobiography ou otobiografia: uma espécie de estudo dos textos através da leitura "auditiva" dos mesmos? Algo a explorar.