se perdem em números, insignificâncias, que se emaranham numa sombra
indistinta de riscos, rabiscos e algumas cores. Por vezes, amontoam-se
cuidadosamente em cima de uma secretária imaginária. Tijolo por
tijolo. Brick by brick. Constrói-se um muro. Fica ele entre nós,
aprumadinho. Temos de o subir para ouvir. Temos de atirar palavras
para o outro lado e esperar que as boas mãos as apanhem. Como nos
filmes. Cenas de um gueto invisível dos dias berlinenses. O muro
constrói-se por ele, folha a folha, página a pàgina, como o tártaro
nos dentes, a erosão das rochas, o musgo nos troncos das árvores.
Seria a ideia para uma curta-metragem. Aliás, para duas bem
diferentes. Uma com papéis, outra com livros. Os papéis numa
secretária imaginária, os livros no parapeito de uma janela. Os livros
como um estore que apaga a luz do dia e entrega a leitura à noite. Um
a um. Kafka, Lobo Antunes, Bukowski, Pessoa, Burroughs... tantos. A
luz que atravessa as frinchas. Um pensamento que trepa. Uma telepatia.
Uma ameia que se cria. Um espaço onde se faz música. Uma imagem
pinkfloydiana, seja dito assim, sem pré-conceitos. The Wall. Na
televisão uma imagem monumental. A história do Homem conta-se com os
livros que se amontoam. A história conta-se por detrás do muro onde
tudo são ecos e vozes fantasmagóricas sem corpo. A história conta-se
quando o muro cai e se vê que, afinal, ele era todo feito de
esferovite. E aí sim, os músicos atiram um acorde novo, nunca antes
pensado, num drone feito de tempo e electricidade, onde os pensamentos
negros se diluem numa corrente de água pura.
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