o vento. Sinto o ruído maquinal do comboio no corpo. Um nervoso parado
antes do arranque. Não consigo ouvir o som das árvores. Imagino-o
apenas. É o som mais parecido com o mar que tenho. Queria vê-lo.
Lembrar-me do cheiro. Sargaço. Homens feios que saem do mar de fatos
amarelos, grandes boias negras e polvos espetados na ponta do arpão.
As sereias não existem em águas frias e violentas.
O mundo era todo areia, castelos, túneis, locas, pocinhas de água com
carangejos, pulgas saltitantes na areia molhada. O cheiro a sal
pregado na pele durante dias. O som das ondas durante a noite. Um som
grave, poderoso, distante. Um som muito maior que os pesadelos. Um som
que preciso. Um som que quero ter fora da memória. Um som presente.
A praia deserta.
O pão fresco pela manhã. A solidão dos fins de tarde depois de um
banho de água fria. Remédio santo. Um cruzeiro. A alegria de topar um
petroleiro na distância. Uma tempestade, a praia deserta. Manhãs de
nevoeiro e um episódio que queria apagar da memória e não consigo. A
menina que brinca no monte de sargaço e um tractor que se aproxima
depressa demais (para quê tanta velocidade?). A mulher que chora, uma
procissão de corpos tristes. É só por isso que não gosto de sargaço.
Quero-o no mar e não na areia. Quero-o longe da costa, nas
profundezas, a alimentar peixes e o ar que respiro, a dar cor à noite.