8.5.11

A mulher a andar para trás

Há uma mulher asiática que vive na Farmilo Road e que todos os dias
(digo eu, porque não passo por ela todos os dias) sai de manhã cedo à
rua para fazer exercício no passeio. Deve ter cerca de setenta e
muitos anos, mas como é asiática, e os asiáticos enganam, é bem capaz
de ter para aí 150 anos muito bem conservados. Sempre que passo por
ela, ela está a caminhar para trás e a bater uma palma à frente e
outra atrás das costas. Muito calma e silenciosamente. Se o David
Lynch a conhecesse arranjava logo forma de criar uma cena num filme
com ela. É uma figura perfeita: passo lento, silencioso, expressão
pacífica como se não fosse deste mundo. Hoje fiquei a saber que também
sai à rua ao domingo. E ela ficou a saber que eu também saio ao
domingo para ir apanhar o comboio. Pelo menos este domingo, dia de
trabalho extraordinário. Ela faz aquilo pelo equilíbrio dela, saúde
provavelmente, bem estar físico, ritual. Eu vou para a estação a pé
pela mesma razão. Ouço os passarinhos pela manhã, contemplo as
àrvores, mexo as pernas e às vezes dou uma snifadela numa rosa com
cheiro forte, feito maricas. Ajuda, sem dúvida, a respirar melhor. Um
dia destes, se me der na bolha, vou fazer o caminho todo a andar para
trás e a bater uma palma à frente e outra atrás das costas. Pode ser
que também eu entre num filme do Lynch.