26.4.11

Uma máquina de ruídos

Eu que estou agora dentro de um comboio, penso que tenho um comboio
dentro de mim. Uma máquina de ruídos. Um motor com rodas sobre carris,
que ora ameaça que descarrila, que ora ameaça que atropela alguém sem
nome, sem idade, já sem corpo. Um comboio também sem corpo, um
comboio-fantasma. Carruagens com gente. Gente sem cara.

Por vezes tudo fica silencioso. Ninguém fala, a máquina cala-se. Mas
continua a viagem. Quando o tempo aquece os carris dilatam, quando
fica frio abrem espaços entre eles e o som metálico das rodas produz
ritmos. Mas, no fundo, não passa de um comboio que passa. Noite e dia.
Tanto traz pesadelos como um embalar de colo para os sonhos. Percorre
túneis por montanhas infindáveis. Abranda nas margens dos rios, dos
mares e de outras paisagens. Deita vapor para criar nuvens que choram.
Expele fumos que intoxicam e desfocam o olhar distante. Dou-lhe carvão
sem saber muito bem como. Alimento-o de outras viagens também. Às
vezes sou o condutor, o maquinista, mas muitas vezes não. É ele que se
conduz, cego, a apalpar terreno. Eu observo. Acordo a meio da noite,
perdido, sem saber por onde ele anda, quem e o que leva, em que
estações tem parado, que destino leva. Acordo e ouço o ruído da
máquina à espera que ela me diga alguma coisa, mas o que apenas
consigo saber é, espreitando a frincha da janela, se é dia, se é
noite, se chove, se faz sol. É tudo o que eu posso saber, porque a
máquina não pára nunca e quando ela ameaça descarrilar eu choro.