21.3.11

É domingo. Estou na cozinha, porque não tenho outro sítio melhor, a
debater-me com mil e uma coisas que não deveriam fazer parte de um
domingo. A debater-me com um eventual ressuscitamento kafkiano
pontual, para tocar num festival, sem mais nem menos, depois de anos,
e uma voz que me diz não e outra que me diz sim. Não é uma voz
intermédia que diz talvez. É sim ou não. Ouço-as enquanto tenho de
parir textos para a mensalidade do costume e o corti-cose de uma nova
ideia platinada em trípticos-vídeo online. Ideias em combustão. Sins e
nãos que voam e que se atravessam. A pensar no que farei quando
acordar quando os pensamentos já estiverem dormidos sobre eles. Nisto,
quando a porta se abre e "o meu computador não funciona e porquê?" E
porquê? Eu é que sei lá porqué? Tenho vozes que me falam e eu sei lá
porquê? Tenho textos que a mão não escreve e eu sei lá porquê? Tenho
um domingo cansado e sei lá porquê? As perguntas sucedem-se umas às
outras há semanas, há meses, há anos, há uma vida inteira, se calhar.
Juro que não consigo perceber tanta dificuldade em domesticar palavras
faladas e encho-me de pavor pensar que se trata de um problema de
fossilização genética. Amanhã vou chegar ao escritòrio e assim que
alguma coisa falhar vou dizer "e porquê?". Quando o metro parar comigo
empacotado lá dentro vou gritar bem alto "isto não anda e porquê?"
Quando me sentir só no meio da rua a pensar sem pensar vou berrar
"isto de andar aqui só é uma merda e porquê?"
Páro por aqui.
Já deveria estar habituado. Não sei porque me desabituei a não ter
palavras que sejam mais do que uma consulta de escritório. De alguém
que chega, faz uma pergunta acabada em "e porquê?", espera que eu abra
uma bìblia com 3549 páginas, encontre a resposta, e se vá embora sem
uma única palavra mais. Sem pagar com um "como vais", "o que fazes",
"que merda é essa aí que andas ocupado". Coisas simples, da vida,
normais. Um pouco até como aquilo que nos diz um oftomologista:
melhor, pior ou igual...
"Isto não dá e porquê?"... Nem o caixa d'óculos com orelhas para fora
fazia perguntas assim quando, só, não tinha ninguém para resolver
aquela conta de dividir cheia de casas decimais e milhares de
números... Nem o ginha pequeno que, aos cinco anos, lia títulos e
parágrafos da merda do JN, feito puto amestrado de circo, para
impressionar os amigos a tasca que, a partir de uma certa hora, já
mastigavam em seco como se tivessem papel na boca. Nem o puto que
esperava ansiosamente pelas 10 da noite, quando a mãe saía do trabalho
para que o gelo deixasse de lhe fazer sons quebradiços debaixo dos
pés.
Por momentos, num domingo tardio, anos e anos depois, o som do
mastigar em seco de papel me diz que a mãe está a chegar a casa. Fecho
o dia num gesto e apago as luzes descansado.