Aqui o tempo apenas serve para lutar. É todo ele um relógio de um tic-tac absurdo, ensurdecedor, a dizer-nos as palavras imaginadas do atraso. Temos com ele uma relação vadia, um desejo de obediência infatigável meio perdido entre olhares e gestos desconhecidos. Cada paragem é uma outra bagagem, uma outra cara, uma outra mão que se agarra à vida. É toda ela uma sensação de não ser esta estação.
Despedimo-nos há 15 minutos numa estação sem nome, algures num entroncamento de passagens onde a rosa-dos-ventos, em hesitações imprevisiveis, toma o lugar dos adeuses, das últimas palavras daquele eco próprio de sábado adormecido. Aqui mesmo, onde passámos já tantas vezes, trocámos as últimas frases com sentido e um abraço. O resto continua na órbita infatigàvel dos grandes sonhos, das infinitas partidas para um mar, seja ele qual for, de água ou de gente.
E agora? Que linha é esta? Que ruído de comboio é este no qual não distingo velocidades, caras, vozes, gestos? Quem é este aqui mesmo sentado à minha frente com um emblema vermelho no lado esquerdo da camisola. São três galos vermelhos, qualquer coisa que tem jesus no nome, e o resto não interessa. Porque é aqui que eu saio. E nunca mais o verei.
É já longa a viagem. Não resta senão esperar que venha uma voz qualquer que quebre este silêncio, esta vertigem, este cansaço. São já dois dias, três sonhos de ter a mãos sonhadas, quatro devaneios sem princípio de nada. A carruagem é uma sala de visitas. Existe um silêncio obscuro por detrás de todo este ruído. São os olhos as portas para esse outro lado, a oferta do abstracto, um motivo particular. Melodias fáceis. Mas aqui, mais uma vez, todas as caras são diferentes, nunca vistas, esquecíveis (existe esta palavra? No plural?). Adormecidas pelo tempo, pelo livro, pelo vazio. Um homem apoia a cabeça na mão direita sem a apoiar verdadeiramente. A mão esquerda segura uma mala de viagem preta. Olha à sua volta e pinta um auto-retrato de ausência. Olha para onde afinal? Vê o quê? Que gesto é aquele de tocar a testa com as pontas dos dedos? Transforma-se. É agora outro. Tem um caderno no colo e um livro no bolso. Uma caneta azul e um marcador fluorescente amarelo. Lê em voz alta mas toda ela é silêncio porque o ruído sobrevoa a carruagem, que já não é a mesma, que já não possui a mesma luz, a mesma gente. Lê apontamentos de viagem, de lugares que não existem, de outras vidas que não a desta gente aqui de pé a segurar sacas de plástico para levar para casa.