O professor morreu suicidado. Penso que foi hoje, recebi a notícia hoje. Chamava-se Francisco e foi professor de história. Fui aluno dele a partir do meu 10º ano do secundário. Era a minha disciplina preferida e dedicava-lhe mais dias de estudo do que qualquer outra. Não era o meu professor preferido mas foi o único que ficou nos meus dias. O Francisco gostava da minha escrita e dava-me muitas vezes um 19. Ficava zangado quando eu me desleixava e não escrevia tão bem como ele gostava. Não podia ser sempre. Às vezes andava cansado.
Lembro-me da primeira aula. Ouvimos Michael Nyman o tempo inteiro enquanto ele dizia as coisas dele, as datas, todos aqueles tópicos tão obedientes dos programas. De vez em quando lá lhe saía uma piada ou outra e em pouco tempo a relação aluno-professor se tornava límpida com a única autoridade possível: respeito. Falava muito devagar, monocórdico, e na maior parte das vezes sem qualquer entusiasmo. Era difícil para ele lidar com tanta canalha, tanta estupidez, tanta brincadeira. Às vezes enervava-se naquela lentidão que lhe era própria - não gostava de barulho - e desistia depressa da música.
Era um tipo apaixonado, romântico, de um amor perdido pela escrita, pela poesia, pela arte, pela figura feminina... era um platónico, via-se, e talvez muito mais do que isso. Às vezes zangava-se comigo porque eu era chato. Mas sabia bem que eu apenas o era quando ele também o estava a ser, com aqueles acetatos que ele se limitava a ler durante 45 minutos, com uma letra horrível. Ele zangava-se simplesmente porque queria acabar de ler aquele tudo e nós chateávamos com perguntas, comentários fora de escola, música, gajas, tudo e mais alguma coisa. Ele até se entusiasmava mas ficava logo danado porque perdia o tempo para terminar a aula que havia planeado. Custava imenso perceber que ele não se conseguia soltar, despreender daquele sistema, daquele cérebro demasiado culto, e viver as aulas ao deus dará.
Ele disse-me para não estudar história porque a vida de professor iria ser difícil no futuro. Disse-me que o direito também não seria lá grande opção, mas lá anuiu para não me dizer para deixar a escola e me dedicar à escrita, à música, à poesia, à arte. Sei lá. Ele não podia dizer isso. Zangou-se outra vez comigo quando eu depois de lhe pedir para rever a minha prova global não lhe disse nada sobre os resultados. Sei lá onde andava a minha cabeça. Acabado de sair de casa, chegado a Coimbra, a tentar perceber o que era aquilo tudo, todo aquele futuro embaciado... mas encontrei-o várias vezes no antigo Concílio e o amuo foi-lhe passando. Só aí me apercebi, de facto, o quão ele era frágil.
Depois o tempo foi passando. As conversas aconteciam à noite, num café qualquer, ou numa exposição em que ele viajava solitário debaixo do seu sobretudo. E ria-se. Tinha uma gargalhada única. Lenta também, mas honesta. Houve alturas em que vi que não andava bem. As palavras saiam-lhe ainda mais lentas, em tropeços, como que aprisionadas. Mostrou-me o caderno que trazia no bolso. Cheio de poesia. Ele dizia que não. Que era invisível. Ele era invisível.
Lembrei-me hoje de ter conversado com ele numa esplanada. Ele perguntou-me onde é que eu andava. Eu disse-lhe. Ele ficou contente. Um pouco surpreendido, talvez. Creio que estava bem dessa vez. Depois disso, passado um tempo, creio que que passei por ele no mesmo sítio e não parei. Estaria com pressa? Pressa? Eu nunca estou com pressa... Talvez não quisesse estar com ele ali, no meio daquela gente. Talvez quisesse que ele falasse comigo só. Acho que gostavamos ambos disso.
Atirou-se de um quarto andar, disseram-me hoje. Deve se ter cansado dos acetatos, de nunca conseguir terminar as aulas a tempo, de não poder ter música com tanta canalha barulhenta, de não ter com quem ser chato, de não ter tempo para dizer àquele cérebro tão denso "pára que eu caio", de não poder fazer da vida uma gargalhada lenta das dele...
Não quero dizer mais nada.
15.02.2011