5.2.11
[…] eu nasci no mesmo ano, em 35, ela nasceu em 35 e eu também. Eu faço agora no dia 20 de Abril e ela faz mais para diante, não sei bem, ela ainda ontem disse aqui. […] Ela, nasci em 35 e vou fazer 74. Eu disse “não, vai fazer 75, eu também vou, eu também nasci em 35” […]
Eu só lembro de coisas fracas quando era pequena […] sei lá, quando era pequena, a minha vida… a do meu pai, sim, os meus pais, era muito má. Era muito pobre e depois o meu pai era muito bêbado, batia na minha mãe, isso sentia bastante, e claro, e nós vivíamos mal… mal… porque quem tem um pai que… que não está a botar conta pelos filhos, como quem diz, não governa a casa, a vida é muito má.
Porque quando ele chegava a casa muito bêbado só batia, e a nós também, punha-nos fora da porta, punha-nos… como quem diz, a nós não punha, o que punha era a minha mãe, e nós íamos com ela… era noite… […] por exemplo, vinha-mos para fora, não era, punha fora de porta a minha mãe, não fechava a porta. Ia para a cama, estava bêbado, assim que estivesse a dormir, vínhamos para a cama. Era o que fazíamos, claro. Porque no outro dia já tinha esquecido. […] era um bom homem, que era um bom homem, o que é que se quando estava com o vinho em casa era ó nosso deus que nos acuda. […] Chamava-se José Joaquim. […] José Joaquim Pinto. […] E trabalhava bem, era um artista e ganhava muito dinheiro. O que é, enquanto dava um bocado, por exemplo, para cozer o pão, para aquilo que… para qualquer coisa para casa. E o resto do dinheiro guardava-o e enquanto tivesse dinheiro não trabalhava. Só trabalhava quando acabava o dinheiro. Ora, acabava o dinheiro, acabava tudo em casa. Por isso, tive uma vida triste, não é. Claro, fui para escola, pronto, estava em casa, fui para a escola, fui má, também fui má, como quem diz, também fiz as maldades que a tua avó é má. […] Fui para a doutrina, tinha para aí seis anos, naquele tempo a gente ia para a doutrina. O padre bateu-me porque ele disse assim: “estai quietinhos aqui” – era uma cabanica de rapazes – “aqui neste banquinho, estai quietinhos que eu vou a casa”. Ele foi a casa, nunca mais vinha, nunca mais vinha, eu e um rapaz toca a dormir, assim a adornar… pois nós não podíamos brincar, éramos burros, olha que a canalha dantes era burra, senão brincava, virava aquilo debaixo para cima, era burra, era, senão brincava… ele vinha e olha já acabava. Mas nós toca a dormir. Estávamos ali muito quietinhos em frente ao sacrário, muito quietinhos, ora prontos, ali fim de tarde, no verão… ele deu-me com uma cana, caçou-me assim uma orelha parece que ainda hoje me dói. O outro rapaz chorou, chorou, chorou, mas eu como era má, digo assim: “Nunca mais venho à doutrina”, virada para o Senhor. Mas não devia dizer porque estava em frente ao sacrário. Não devia porque nem sequer me lembrou nem… nunca mais fui, levei tantas vezes. Prontos, chegava ali, “Carmo vai à doutrina” e eu “Mãe, dói-me a barriga…” está bem pronto, dói-te a barriga, ficas. Chegava ao outro dia doía-me a cabeça. Chegava ao outro dia… pronto, ele começou a ver que era manhosice, obrigava-me a ir, mas eu não ia, ficava pelo caminho. Chegava, “porque não foste à doutrina?” Porque a catequista era (…) e a minha irmã (…) acusava-lhe. Uma mais velha. “Mãe olhe que a Carmo ficou pelo caminho”. “Porque não fostes?” com uma chibatinha. “Não vou, nunca mais vou, nunca mais vou”. Depois tive sorte que depois veio a minha avó… estava em Guimarães a vender uma loucinha, a vender… um negociozinho, coitada, negociozinho daquele tempo…. E eu virei-me de volta dela “Ó avó leva-me para Guimarães, leva-me para Guimarães, leva-me para Guimarães…” “Ó Ana deixa a rapariga ir para Guimarães comigo”. Ela deixou. Diz ela assim: “Mas ela não vai à doutrina e depois não vai à primeira comunhão” “Eu ponho-a lá” E fui à primeira comunhão na Igreja das Oliveiras em Guimarães, não se conheces se não, e… ela tinha lá um quarto assim grande, um quarto, um quarto, maior do que esta sala… cozinhava lá no sitinho dela, e meteu-me lá na doutrina e fiz lá a primeira comunhão. Por isso tive sorte, mas nunca mais fui à doutrina.
Depois vim, claro, ainda estivesse lá pouco tempo porque eu não me dava lá. Eu estava lá 1, 2 ou 3 meses e adoecia. Não me dava lá, não sei porquê, mas não me dava. Depois vim para cá, fui para a escola. Fui para a escola, a professora, também… que deus a tenha em eterno descanso, mandava-me ir para casa para lhe acender o lume, dantes não havia assim fogões nem nada… “Ó […] Carmo vai para casa, põe-me uma panelica com uns feijõezicos em cima da coisa e faz uma fogueirinha, que eu depois de tarde ensino-te”. Nunca me ensinou. Também te vou dizer… se eram mulheres fracas, aquela era uma. Já morreu. Ai aquela era uma. Nem me dava de comer, nem me ensinava, e ainda me batia às vezes. Eu não gostava que me batessem. Eu podia ser… mas não gostava, era… há canalha que não se importa de levar aqui e ali… não gostava, era das que não gostava. Tinha muita fruta, muitas laranjas, muita fruta… “Vai apanhar as laranjas do chão, mas não comas nenhuma”. Eu… burra, outra vez burra. Não comia nenhuma, ela chegava à minha beira, cheirava-me a boca, não tinha comido, não levava. Se tivesse comido, levava. Era fraca, não era? Era fraca, não era? Aquilo é que era uma mulher fraca.
Ó rapaz, naquela casa passei cada uma. Eu digo francamente. Como quem diz, eu ia dormir a casa à noite. […] Não, não arrumava, também não havia nada que arrumar. Só tinha o quarto dela que nunca lá entrei. Só tinha o quarto do Lamela, sim, que era pai dela, também nunca lá entrei. E tinha uma sala, tinha uma sala, ela tinha uma casa muito grande. Tinha quartos por cima onde estavam… onde vinham depois, no Verão, as irmãs que eram professoras, médicas, ou assim. Um era médico, outro trabalhava no coiso. E… para passar férias, e tinham quartos em cima. E por baixo tinha a cozinha, tinha o quarto deles, tinha a casa de banho, tinha uma sala, tinha uma outra salinha, é… ia para lá o padre jogar a mais o Lamela, jogar não sei o que era… também era outra vez burra que senão virava aquilo de baixo para cima até ver. Não sei se era xadrez como agora se diz, se que era, sei que ele vinha para lá todo o dia. E… e depois andavam com as vacas. Ela tinha… era dona destas casas todas por aí, era tudo uma quinta. E prontos. Mas o que eu passei lá de mais fraco – que essa eu perdoo-lhe, tá tudo perdoado, claro que perdoo – foi uma vez que estávamos a… veio para lá uma mulher cortar centeio… e é isso que eu acho que aquela mulher que era muito fraca que… cortar centeio, não é, uma mulher a cortar centeio, uma ou duas raparigas que até me dava bem com elas e brincava com elas, que era o que me interessava, era brincar. E às tantas diz ela assim: “Ó Carmo, vamos fazer a merenda para a tia Teresa” que também já morreu e era boa mulher… diz ela assim… “Está bem”. Lá fui eu à lendica, levar umas coisicas… fiz bolinhos. Bolinhos como… bolinhos antigos, não eram bolinhos como… Não, era pão, pãozinho assim… mas que eram bons… um bocadinho de bacalhau e assim, e eu tanto queria… E tu sabes que aquela badalhoca que… fizemos os bolinhos, fui chamar a mulher para vir merendar e diz-me assim a tia Teresa (?): “Ó Carmo, pega lá um bolinho, pega este bolinho e come-o”. E ela ouviu e diz assim: “Não senhora, para ela não dê que eu tenho ali para ela”. E eu também não queria… Querer, queria. Sim, querer, queria. Prontos, “Eu vou lhe dar, eu tenho ali que eu vou dar…” Não comi. Ela vem , vira costas, dá-me um pedacico de pão e manda-me com as vacas… e não me deu um bolinho, e olha que eu chorei bem por um bolinho. Era gulosa? Não era… sei lá. Era de dar não era? Era triste não era? Ah, aquela mulher era má porque tinha a outra da Celinha (?), a dona Eminha (?), aquela é Célia a outra é Eminha, que também esteve lá, que ela estava em Cristelo, a professora, eu estive lá em casa dela, também assim… ia até lá e assim… Ela queria que eu comesse sei lá por quantos, queria que eu comesse por dois. Ela é que era má, ela era má, preferia botar as coisas fora de que as dar… sim, mas era… Mas nessa vez nenhum. Às vezes diz assim: “Ai, dai de desougar aquele menino que ele pode ougar. Eu cá com desouguinho não ouga não, senão tinha ougado daquela maré. É assim, não é, pronto, comi pão fiquei com a barriga cheia. Não era a fome que me matava. Mas era que, depois de estar a fazer os bolinhos, era uma coisa que a gente não comia, queria. Agora não, agora bolinhos…
Aprendi a ler, andei na primeira, não é, e eu aprendia bem, olha que eu aprendia bem. Contas e assim era das que aprendia melhor. Só que não sabia era escrever, ler ainda sabia, mas escrever… E hoje também ainda sei fazer bem o meu nome e ler qualquer palavra e assim, mas escrever… e sei bem fazer contas de cabeça, que eles fazem contas de lápis, e quando eles têm feito eu já… já sei muito bem. Às vezes o Júlio… “Olha, esta conta assim assim assim” Eu lá me ponho… “é de, é tanto” . ele fica assim “oh”. Lá vai ele escrever… É certo. Sabia, sabia bem. Mas aprendia bem, aprendia bem. E claro, depois da primeira classe fui servir. Claro, tive de deixar a escola. Nem andou na escola eu, nem a minha irmã, nenhuma das raparigas andaram na escola.
[…]
Três. Tres raparigas e 5… e tenho 4 rapazes. […] É a Maria, uma que mora em S. Martinho, depois de raparigas é a Virgínia, depois sou eu. Os rapazes aprenderam todos a ler. […] Não, já morreu o António, já morreu o Júlio, já morreram os dois rapazes… e estão as raparigas… O meu irmão António morreu novo, morreu com 50 e poucos anos, para aí 58 ou assim. E o meu irmão Júlio, esse, morreu para aí com 60 e tal… Éramos 7, morreu-nos um rapazico em pequenico… olha não sei, ele ainda era mais pequeno do que eu…era bonitinho, lembro-me dele, mas era engraçadinho e tudo.
[…]
…já havia fábricas, não era assim fábricas como há agora, mas já havia para quem trabalhasse… por exemplo, o meu irmão Júlio esteve a servir na Pousa, a fazer louça assim… a mulher vendia, tinha um… vender roupa na feira, mas ele também fazia louça em casa. O meu irmão Carlos, esse, nunca saiu de casa. Esse trabalhou em casa. Mas vendia-mos depois , mais para o fim, assim mais… já era… o meu pai esteve também a trabalhar em Areias numa casa. Assim… mas depois mais para o fim, assim, já eu tinha para aí 10 anos ou assim, arranjamos um freguês, um freguês que nos comprava a louça no Porto, um freguês a vender santos. Como quem diz, fazíamos sagradas famílias, fazíamos… e depois iam para o Porto assim em branco e eles lá pintavam, ficavam muito bonitas (…) Não era como agora com aquele banho mas era com forma. Coziamos a louça e íamos levá-la ao comboio. Havia um homem do correio aqui em Barcelos que levava as coisas para o Porto. E depois lá, havia outro que o levava lá para casa, lá para aquela rua. Ele levava de manhã a louça e à noite vínhamos ao comboio buscar o dinheiro, aquele dinheiro que ele coiso. (…) morávamos lá em cima em Santo Amaro, não sei se tu… nunca viste a casa, não. Morávamos lá para cima, lá para aquelas casas, para cima, à beira do monte. Agora tem muitas casas. A minha irmã Virgínia mora lá. Hoje tem muitas casas de volta, mas dantes não tinha nenhumas. Dantes só tinha uma casa de um lavrador, e as outras casas eram mais que desviadas como daqui a Penelas, mas não tinha mais nenhumas casas. […]
Eu digo que não sei como é que se passava tanta fome. Não sei como é que a gente vivia com tão pouco. Sabeis como era? Ao que a gente vive agora eu não sei como é que se vivia dantes. Mas vivia-se. Mas não se morria. Como quem diz, a gente… em casa da minha mãe, quando nós éramos pequenos, só comíamos sopa, caldo, com uma manadinha de feijões e… nem batatas e couves e sei lá… com bocadicos de farinha para pôr aquela aguinha grossa… é o que a gente comia. E pão quando tinha, porque às vezes nem pão tinha. Ás vezes… se dissesse assim “ó mãe tenho fome, quanto queria um bocadinho de pão”, “Olha vai pedir, vai pedir à tia Carma” que era a minha madrinha, e ela dava-me. Ou à Calistra, às vezes tinha uma mulher que se chamava Calistra, ela era Maria, que é o nome assim por apelido, e ela… a gente chegava lá “Ó senhora Maria, senhora Maria…” “Então? Vais para a venda?” Dizia ela: “Vai-a-me à venda” E a gente ia-lhe à venda, que era mais desviado. Botava um cestinho por uma janela, o dinheiro dentro, e lá o que queria. Depois quando vinha dava-nos um pedaço de pão, de fruta ou assim.
[…] Olha, não sei quanto era. Sei que havia senhas. E era a farinha com senhas, era tudo com senhas, arroz, era açúcar e tudo. Nós íamos buscar a nossa mercearia a Barcelos. Era à beira da Igreja, da capela de S. Bentinho, eu acho que aquela capela é de S. Bentinho. […] e farinha para cozer o pão era por senhas. Às vezes é que não… quem tivesse mais dinheiro… eu também cheguei a ir, cheguei a ir a mais a minha irmã Maria à Neiva… ao milho, à farinha, que lá tinha muitos moinhos, agora não sei… A Neiva, é ali… tem que se ir por Roriz. (…) Eu uma vez fomos lá, eu e a minha irmã Maria. Sai-nos um cãozinho assim debaixo de uma parede, do alto, depois tinha assim um buraco de entrar a água… sai um cãozinho pequerrichinho “au au au au”. Diz a minha irmã Maria “Caça-o, trazemo-lo, vamos levá-lo”. É por isso que a cabeça só fazia asneiras. (…) Ai não, era tão bonito! (…) Vós não sabeis bem, mas aqueles muros tinha… um muro alto mas tinha um cano para entrar água, assim um buraco onde entrava a água, e o cão saiu por ali. E então era um cãozinho, e era bonito. Depois cresceu… Claro, vínhamos de longe, vínhamos para muito longe, nunca mais soube de quem era o cão. Não é por isso que eu digo que os rapazes agora fazem mal, dantes faziam mal na mesma, o que haviam poucos. Não havia esta canalhada toda junta e… haviam poucos, faziam mal e…
(…) Fui servir para essa Lamela, para a tal dona Eminha (?), para Cristelo, tinha uma a dar em Cristelo e outra a dar em Vilar de Figos. É longe… pois é, mas ela uma vez bateu-me e eu vim a pé de lá… ela bateu-me, e é o que eu digo, eu não gosto de levar porrada. Depois, de lá, fui servir… andei na tal… também fui servir para a tal mulher que vendia louça em Matosinhos, andavam nas feiras a vender louça. Fui… íamos fazer a feira a Matosinhos. Ela tinha uma barraca em Matosinhos, estávamos lá, e às vezes íamos vender louça pelas ruas para o Porto. Também não se fazia. Uma rapariga pequerrica, a mandar-me sozinha para o Porto… Louça era unidades assim, desta louça grossa que agora nem sequer há, há mas é mais… tipo mais fino, agora é tudo de plástico. Agora, se havia de ser uma bacia, era um alguidar. Com canecas, assim… ela fazia-me um alguidar com uma loucinha e mandava-me para o Porto a pé, (…) por uma vielas vender, não era naquelas ruas mais coisa, que a gente lá não podia andar descalça, tinha que andar com uma meia num pé e outro sem meia, senão pagava uma multa.(…) O que é, se andasse com uma meia num pé e outro sem meia, dizia que o outro não podia calçar a meia… ou um chinelo, ou assim… (…) e elas, se vissem, pronto… olhavam para a gente e viam com um coiso calçado e a outro descalço, já ia, já se andava.
(…) ia para aquelas vielas, que agora eu olho para aquilo, não percebo nada daquela vida. É, tinha lá umas vielas que agora tudo casas tudo prédios. (…) Andava ali, via os rapazes a jogar à macaca, pousava a baciica no chão, jogo macaca com os rapazes, ora vamos ver.
(…) é por isso que eu fiquei pequena, senão ia ser grande.
E cheguei a ir até ao coiso, até ao… aquilo que tem… que tem tudo… onde se toca, como é que diz, a Casa da Música, até à Boavista. Cheguei ali à Boavista, naquele sítio da Casa da Música, ali era uma florista, era uma gaia que vendia flores, naquele cantinho, depois virava pela avenida abaixo, depois num sítio qualquer atravessava e vinha mais para aqui. Mas metade do tempo não andava só para vender, andava a brincar com os rapazes, tinha que brincar. E os rapazes são eram ruins que senão não me deixavam jogar com eles, sim. E era assim. E passei uma vida, pois olha…
(…) Quando vinha no comboio e via a Senhora do Facho, que contente eu ficava só de ver a minha terra. Via a Senhora do facho e já sabia que ia estar perto. Ela era má, aquela mulher também era má. Ainda não morreu, mas era má. Era essa tal que também, não digo que não me desse de comer e assim, mas era má. Era má porque fazia coisas que não se fazia à canalha. Agora é que eu penso que não se fazia. Num dia de festa, ela tinha uma barraca dentro de uma casa, para estar abrigada, ter louças e assim, e onde a gente dormia. E tinha uma barraca cá fora no dia das festas. E estivemos na barraca para aí até às duas horas. E depois viemos para casa. Chegámos a casa diz ela assim – o homem ficou na barraca para tomar conta daquilo – diz ela assim – ela tinha uma menina pequena – diz ela: “Eu agora vou dormir com a menina e tu quando destonares estas batatas todas” – umas batatinhas novas para eu depois fazer o comer – “vens tu para a cama”. Ora, se eu era a que tinha mais sono, claro que não… uma rapariga com aquela idade, ou sei lá, que tivesse 9 anos já… ora, mal comecei a destonar as batatas comecei logo a dormir, quando ela acordou ainda eu estava a dormir encostada às batatas, ó… é assim, às vezes penso assim umas coisas… na maré não ligava grande coisa, mas agora penso numas coisas que… eram coisas que não se faziam a canalha, não se faziam, é ou não é assim? Claro que não é de pensar assim: “se eu tenho sono ela também tem. Ou vamos dormir as duas ou destonamos as batatas e no fim imos”. Mas não, “destona as batatas e no fim vens dormir”. Ora mal comecei a destonar as batatas comecei logo a dormir, não houve tempo para mais nada.
A dona daquela casa tinha muita pena de mim. Por exemplo, faz de conta, que era esta, este… a nossa casa assim, isto tudo, e aqui tinha a casa da patroa, da patroa a mais um homem, eram boas pessoas, e a barraca era no nosso coberto. Também tinham aquilo fechado, de madeira, e assim, e a gente entrava e estava ali. E a patroa, às vezes via aquilo e tinha muita pena de mim, tinha. Conversava comigo, falava, e assim… era boa pessoa. E o homem também era melhor do que ela, o homem era melhor do que ela, não gostava do que fizesse assim umas coisas. (…) A outra mulher era daqui de Santo Amaro, que ainda não morreu, mas não tarda a morrer, que já tem para aí 90 anos, por isso… Não, mas, o Senhor me perdoe se… também não faria aquilo por mal mas… há coisas que a gente deve olhar para a canalha, por assim, pensar na canalha, porque se fosse uma rapariga que tivesse 15 anos, ou 16 ou assim, já tinha uma boa resisteja (?), já sabia que não iria dormir, ou assim, mas agora assim pequena. Eu naquela maré tratei de não vir e ao mais não quis saber de mais nada. Ela no fim parece-me que me bateu até por não dormir as… mas também não sei, também…
Quando saí de lá parece-me que fui servir para o sr. Durães, para o Cândido, estive lá ano e meio, ou dois anos e depois vim para casa e não tornei ir servir. Diz que não ia mais servir. Comecei… tinha para aí uns 14 anos, ou perto de 15, comecei a ter uns namoritos e toca a não querer ir servir. Trabalhei em casa e depois fui para a fábrica. (…) Depois casou o Carlos, casou o Júlio, casou a Maria, casou o Carlos e eu vim para casa, pois o meu pai estava doente, começou a ficar doente… fazia louça, o meu irmão Júlio vinha trabalhar para nossa casa uns bons dias para fazermos essa louça para o Porto, porque essa louça dava um bocadinho e era o que nos estava a sustentar e claro, eu naquela idade já ajudava muito. (…) Não, era um homem que vendia para estas casas boas (…). Agora não se vê tantas casas a vender santos, mas dantes haviam muitas casas que vendiam santos, vendiam meninos Jesus, vendemos tantos ali no Natal (…), sim, o meu pai, que punha-lhes aqueles olhinhos para eles meterem olhinhos de vidro, cortava-lhes os olhos para por olhos de vidro, era uma coisa perfeita, não era nada como estes presépios que coisa… Não sei se ele vendia alguma coisa para o estrangeiro, senão… mas era assim… ele tinha poucos trabalhadores, ele podia ter 1 ou 2 homens a pintar, a trabalhar aquela louça.
[…]
Era ali, era ali em São João. Não era uma fábrica grande, era uma fábrica pequena, para aí com 10 trabalhadores, ou assim… naquele tempo também não havia fábricas grandes.
Não. O tio Júlio quando casou trabalhava na serração. Era na avenida da Estação mas essa fábrica fechou já há muito. […] Depois é que ele… o teu avô adoeceu… não… quando eu conheci o teu avô, fui aos Passos a S. Veríssimo, conheci o teu avô, começámos a namorar… o pai dele bateu-lhe, por ele não ir… por ele não lhe pedir para ficar para o fogo das Cruzes, ficou sem ordem, ele chegou a casa, bateu-lhe. E ele então tratou de casar… Mas só namorámos 3 meses, não foi preciso namorar muito. E casámos… e trabalhei… e é assim é a vida… A minha vida, a minha vida é assim… ó, mas para que queres saber a minha vida?
(…)
E por aqui era quase a mesma coisa. Eu não tinha mas os outros também não tinham. Era miséria em todo o lado, havia muita miséria. Também… eu não sei… os lavradores nem sequer sabiam plantar batatas, nem sabiam pôr couves, nem sabiam nada.
(…)
Quando casámos fomos para uma casa em S. Martinho, mas só estivemos 3 meses, ou 6… Depois viemos para aqui. Vivíamos em só metade desta casa, depois a daqui de cima saiu, ficámos nós. (…) Claro, desde que eu comecei a trabalhar e a vida também começou a se querer melhor, nunca mais passei fome, nunca mais passei necessidade de nada. Mas não sei como é… juntavam-se as raparigas assim… festas não haviam, festas era… os Passos ou assim… não havia… era o Terço… mas se juntasse as raparigas ou os rapazes ou assim … era assim: tudo alegre, tudo com fome, mas tudo alegre, tudo contente. Não valia a pena chorar, não sei… mas era assim. Agora, é porque aquele droga-se… aquele ficou bêbado… é porque aquele que está… não sei, eu acho que a vida dantes era mais alegre. (…) Era, agora é que tu disseste tudo! Eu nasci no sábado de Aleluia (?) Decerto já nasci com a alegria comigo. (…) Eu às vezes digo assim: “Porque é que eu sou tão (…)… aquela coisa toda… e estava sempre bem, para mim estava sempre contente, bem, tinha marés em que estava triste, não era, também havia tudo, mas para mim estava sempre contente.
(…)
Sabeis que tinha um filho de namoro, não é, vós sabeis… e estava aqui… e depois adoeci, não era, o médico disse: “Tem que tirar os filhos da sua beira, tem que tirar, tem que tirar…” Fui para casa de minha mãe, lá para cima… O Carlos foi para os avó, e o teu pai foi para o coisa, mas nasceu um filho nessa maré, não havia mais nada senão arranjar rapazes, e… mas eu quando adoeci, como quem diz, vê-se desse menino, desse que morreu, ele… ele nasceu e morreu… mas quando comecei a andar grávida do rapaz eu só tomava café (estás a ver? Já fui à feira e vim?)… então cala-te, [tomava] café com pão, não comia mais nada. Comecei a enfraquecer, enfraquecer, enfraquecer… uma gripe. Claro, a gripe também se não for curada… mas eu, da gripe já estava a ficar melhor, apanhei um solinho, eu acho que foi disso… vim até ali fora e comecei… naquele dia já tinha muito febre, muito febre, muito febre. Diz o médico assim: “Se tu comeres eu em 15 dias saro-te, mas se não comeres não saro, se comeres… Ora se eu não comia nada, como é que eu ia comer? Tudo que eu comia, tudo vomitava… se fosse a comer vomitava logo. Pronto, cheguei ao ponto que cheguei. Fui para o hospital mas não fui ter o rapaz, o parto tive em casa, mas quando vim do hospital… foi por isso que ele foi para a tua mãe, para a tua madrinha… (…) E assim fiquei doente… nunca mais fiquei boa, tinha tudo… tinha tudo aqui mal… ó, tive aqui mal, veio um homem uma vez aqui à minha beira, aqui visitar-me, ainda era um rapaz novo, que olhou para mim – estava ele e o meu irmão, deus o tenha no céu – às tantas eu ouço aquilo, bruimba… caiu no chão…
Mas não te aflijas que tive mal que era preciso pegar em mim ao colo para fazer a cama, para me virar, dar-me de comer, qualquer coisa na boca, nem sequer me virava ou assim… Depois um dia qualquer já estava melhor mais um bocadinho, claro. Diz a minha mãe assim: “Ó Carmo, eu vou-te fazer a cama, o Júlio não está aqui para pegar em ti, vou-te por aqui uma cadeira à tua beira, e tu botas as pernas ao chão e sentas na cadeira, e eu faço-te a cama, ficas mais… sim, não havia destes colchões… “Tá bem”, eu olho, “Tá bem mãe, eu boto as pernas ao chão”, olho para as minhas pernas, “Ui, minha mãe, eu tenho as pernas que pareço uma cabrita”, se não tenho a cama à beira desmaiava, tinha umas pernas tão magrinhas, tão magrinhas, tão magrinhas… aquilo é que era pernas… aquela rótula do joelho, aquele osso que a gente tem aqui, estava todo de fora. Digo eu assim “ó meu d… ele é isto?” Por isso eles não me davam nenhum espelho para eu olhar para a cara…
(Olha ela ainda não disse que eu uma ocasião a levei ao Facho) Ó Júlio, ó Júlio, nós ainda não chegamos aí (Numa ocasião estava aqui a mãe dela a tomar conta dela e diz eu assim: “Ó Carmo, eu vou ao Facho […]
[…]
Quando saímos de casa já a Senhora estava a chegar ao Facho, e chegámos lá estava a Senhora a entrar para a capela, pois foi só no tempo de rezar a missa e dar o Senhor e mais nada. Por isso tinha que ser depressa. (…) Mas se pesasse como agora, a ver se me levavas ao Facho com esta força de agora, tá bem, tá bem… (…) E mesmo com 30 anos, se eu pesasse como peso agora, não me levavas, não te aflijas… ó tem juízo, tem juízo…