10.1.11

Olhas para a cidade do teu tempo e não vês nada. Sabes que estrada é esta, que edifício é aquele, que gente é aquela que conheces de vista, estátuas que se movimentam. Sabes que és estrangeiro. Sabes que afinal a tua terra não é a terra em si, mas sim as pessoas que tens nela. Muito poucas. Muito mais do que isso: são as pessoas com quem ainda falas, com quem ainda conversas, com quem contas a tua vida, o que fazes, o que pensas. Se estas pessoas não existem, a tua terra, o teu mundo, também não. Se não tens com quem partilhar palavras não tens mundo, não tens lugar. Os ingleses dizem sobre isto a ideia de "displacement", o que na melhor das traduções se diz por "estar deslocado". Não estamos. Temos as palavras que trocamos, porque a amizade não é aquilo que existe entre, mas aquilo que existe dentro. E quem diz a amizade diz qualquer relação entre um ser e qualquer outro e com o mundo. Não importa estar aqui ou noutro lugar qualquer. Importa sim estarmos presentes connosco e olhar para isto, para estes edifícios, estas ruas, estas gentes e dizer em voz alta: "isto não é meu nem eu sou disto". Eu só venho aqui porque tenho aqui este e aquele e é isto que importa: ter consciência que é com as pessoas que quero estar independentemente de ser nesta terra ou noutra. Tenho amigos ao longe e não ao perto. Quem sai para o mar, fica no mar. Não regressa. Não quer morrer onde nasceu.