
Sou um priviligiado. Todos os dias da semana tenho o 'prazer' de assistir a um concerto de música concreta sem pagar nada, só para mim. Não é o John Cage mas pode-se dizer que é um discípulo. Muito mais sério que o mestre. Por isso não fala. Leva o silêncio todo para a boca.
O concerto de hoje foi um dos mais portentosos que há memória. Entrou na cozinha e correu literalmente para a primeira panela. É um artista tímido. É incapaz de dizer uma palavra à audiência. Porque não pode, porque não quer.
O espectáculo é automático, um reflexo condicionado, pavloviano. Atira-se à primeira panela e inicia um concerto que se pode dividir em 3 actos: a) pratos e panelas; b) batoneira mastigal; e c) escarradela monumental. Hoje, o primeiro acto foi de uma cacofonia impressionante. Conseguiu, desta vez, exultar os timbres mais agudos sem partir um copo. A rapidez com que executa as sonoridades múltiplas apenas revela um músico genial que não se coibe de respeitar o silêncio de quem dorme ou quem acaba de acordar. Impossível. O artista faz mesmo questão de dizer 'eu estou aqui' sem ser pela boca, mas sim, pelo apanhar e arrumar de pratos que vergam o aparador de plástico que apenas ia durar duas semanas, e que afinal já vai em 4 meses impecáveis.
Primeiro acto cumprido chega a hora de usar a boca como batoneira de torradas com montes de doce de morango. Com a ajuda líquida do café com leite, mais uma vez, as sonoridades tornam-se exuberantes: rrrrraummm, pfom pfom pfom (um som muito parecido com bolas de ténis), ptnham ptnham ptnham. E quantas palavras vão com isto? Infelizmente nenhuma. O artista não gosta de explicar a sua arte.
Depois, para terminar, vem uma série sucessiva de escarradelas de timbre invulgar, quase inumanas, cuja técnica é um mistério. Foram anos e anos, a desenvolver os músculos da garganta diariamente para produzir um dos timbres mais complexos do canto concreto.
Tudo isto é uma preciosidade digna de ser gravada. Fa-lo-ei brevemente. Mas prometo que depois disso irei arrumar religiosamente pratinho por pratinho, no dia anterior, à noite, com todo o possível silêncio que a louça merece, para no dia seguinte terminar o meu pequeno-almoço silenciosamente e assistir tão só, e apenas, à sessão de autógrafos imaginária.