27.10.10



para quem sai pela primeira vez na estação de highbury & islington, dificilmente adivinha que logo no primeiro quarteirão existe um relentless garage (onde há bem pouco tempo os einstürzende neubauten completaram a segunda noite das comemorações dos seus nao sei quantos anos de carreira) e, do outro lado, uma igreja, a union chapel (onde no mesmo altar onde se celebra missa pela manhã se pode ver a cobra cuspideira patti smith à noite; e também onde dentro de poucas semanas ana moura levará os ingleses aos fados). se procurarmos bem, não muito longe da zona, fica tambem um dos pequenos bares por onde andaram os joy division, o hope & anchor e, mesmo à saída, sem que sequer seja preciso levantar a cabeça para o encontrar, fica o buffalo bar onde na sexta-feira passada fomos encontrar os black bombaim.

descemos as escadas.

(descemos lentamente para um espaço de ambiente avermelhado, quente, de gente parca, olhos escondidos e um qualquer feeling de cerveja de garrafa quente, meio podre, venenosa, a lançar chamas líquidas ao primeiro trago.)


no palco, três fazedores de rock. do rock que começa exactamente quando a voz já passou, os habituais versos e os refrães, e tudo agora são as visões de um hendrix distorcido, uma fender jaguar que se enfurece quieta, cabeça baixa, em direcção a um lugar qualquer que o diabo londrino desconhece. não por caminhos de toupeira, mas por um mar aberto, ou um céu de psicadelismos cada vez mais raros. uma guitarra que voa, que também aterra em riffs. riffs do mais puro hard rock, sem complicações grunge de contratempos desnecessários. nem tiques de exibicionismo metrossexual. o público agradece a longa viagem como quem se sente naquela imbecilidade provocada pelo medo de aplaudir a aterragem no aeroporto. enfim salvos. não vamos cair. correu bem. estamos inteiros.

entre todas as catalogações possíveis nenhuma é melhor do que outra. é rock e pronto. guitarra, baixo e bateria. mais, só perturba. e para quê tentar dizer isto ou aquilo sobre o rock que é infinito, seja numa cave em londres, em nova iorque, no japão ou em lugares recônditos como o xispes? é preciso gostar e ter quem goste. o rock não foi feito para filhos da mãe. os black bombaim já devem saber isso. e se não sabem estão prestes a descobrir. o rock é infinito, serve-se cru, de guitarras ao alto e seja como for, onde for e com quem for. na infinitude do rock não há tempo para fazer cenas.