21.10.10

22 St Peter's Square

levanto a cabeça, vejo os olhos. ao fundo da sala, um prato vinil que nunca ouvi tocar. uns discos numa prateleira pequena. nunca lhes toquei. no canto à direita o S. no lugar do S.. Depois o F., a M. e o E. que acaba de chegar, despir o casaco, sentar-se e bufar. de costas, o fantasma de M., o grande C. e o enigmático M.. talvez fosse ali dantes o lugar para a bateria ou outra coisa que calhasse. aqui, deste lado, de frente, o D., o N. e o O.. no meu lado as 'backing vocals' femininas: do lado direito a L. e a A., do lado esquerdo a temporária M.. Não somos uma banda, nem músicos de estúdio, mas fazemos sons, barulho, falamos. Não temos guitarras, nem violas, nem bombos, nem nada do género, mas temos teclados de computador, telefones que tocam, silêncios que atormentam.

De vez em quando passa uma fila de vocalistas em direcção à pequena sala. não cantam nem tocam nada, mas jogam matraquilhos. riem-se, gritam, dizem disparates. fazem do matraquilho uma caixa de sons, de lamentos, de movimentos sem rumo que não seja uma bola e uma baliza de cada lado. às vezes somos nós. não tocamos nem dizemos nada, mas jogamos matraquilhos.

quantos fantasmas existem aqui?

onde estão as vozes que foram gravadas naquela chaminé?

onde está o marley? o tom waits? o drake?

o john piper?

leio: The basement was converted into a small recording studio, called the Fallout Shelter with its entrance at 47 British Grove, incorporating the base of the chimney, which was occasionally used in recordings to add reverb to vocals.

sou músico de estúdio

do fallout shelter

mas apenas tenho um computador à frente e os sons dos matraquilhos, dos teclados, das vozes, dos telefonemas, da gentil M. que reza em grego, dos gritos do C., do cruzamento de sotaques, dos auscultadores nos quais escuto o mundo lá fora, no terraço à espera de um raio de sol e do fumo dos charros do bob marley a sair duma chaminé enfurecida.