1.9.10

que cada folha seja uma palavra

Tudo aquilo que eu queria ouvir era o vento nas árvores. O vento nas árvores como ondas de mar na praia. Sentado à mesa, de olhos postos no prato, talheres pousados na borda, a ouvir o mar lá fora. Mar que não é mar. Mar que são ramos carregados de folhas a agitarem-se como água salgada ao vento. As vozes na cozinha não são mais do que as conversas mudas entre pescadores. Gestos de árvore. E eu não sou mais do que uma árvore de braços caídos, um salgueiro-chorão talvez, a levar garfadas de comida à boca como quem dá migalhas aos pássaros. As palavras faladas quase não saem porque, quando se é árvore, a pele endurece e os lábios contorcem-se dificilmente para um sorriso. Depois, tudo se amontoa, crescem pilhas de coisas por dizer, coisas já livros, coisas impossíveis de dizer com a boca. Só muito mais tarde nos apercebemos que quando se é árvore é porque não se escreve. E aqui, escrever é agitar os braços como ramos e pintar palavras nas próprias folhas, na pele.

Às vezes desejo que as pessoas sejam árvores também. Que não falem. Que apenas agitem os ramos ao vento numa frequência sonora única. Que se escrevam. E que cada folha seja uma palavra que no Outono cai castanha e morre. (As palavras nascem para morrer. Não servem para jarras.) Depois, quando as pessoas já nuas, quando já sem folhas e palavras para largar do alto, quando já absolutamente entregues ao silêncio e ao som de mar, que escrevam com os dedos delicados no seu próprio tronco: «o silêncio também é meu».