Ter um cartaz na mão, rugoso, numa tentativa de o esconder da chuva, pronto a introduzir a senha libertadora de um espaço abandonado, é um momento que fica de uma forma única (há momentos que não se repetem).
Assistir a algo só, é um risco (ninguém sabe quem foi). Se estivermos sós a processar uma ideia e a despejar arabescos numa tela, a soltar risos solitários de prazer na elaboração artística, teremos de conceder espaço à loucura. À pouca ou muita que temos. Imagine-se a presença solitária a um acontecimento único (nem que seja o avistamento sóbrio de um OVNI)… pode ser verdade, mas não se regista e não possui existência para os outros.
O cartaz foi feito quando o mundo já estava dividido em dois: um, severo; outro, perdido. Apenas um homem tentou novamente juntá-los. Apenas uma folha não dava espaço à criação. Eram precisas duas… uma só era pequena demais e não houve o mínimo esforço para se criai uma maior. Por isso, a única hipótese possível era juntar as duas partes diferentes (aparentemente iguais) e colá-las com fita-cola, daquela dos 300, disfarçando-se a fenda com uma operação cirúrgica simples às escondidas de todos.
O local abandonado representa muito mais daquilo que se pensa… o local abandonado sempre foi quase um fetiche: foi-o nos passos incertos para a criação de um cenário de Dream of Chocolate numa fábrica abandonada e agora destruída; foi-o na mensagem tardia para a reconstrução de um teatro. Foi-o depois para a auto-contemplação quando já não havia cenário abandonado. Aos poucos o abandono assumiu a regra. Há tempos escrevia algo do género: “abandonamos o nada para nos quedarmos no silêncio”. Aqui sobrevive apenas o silêncio.
A MAE (Mulher Árvore Esquisita) era um novo ser. Representava a morte para o nascimento. Existia nela a sensualidade para a cópula e, ao mesmo tempo, o umbral para a luz. A cópula era mortífera como o amor-demasiado do louva-a-deus.
No cartaz estavam as marcas dos dedos, dos pés e… dos erros. Estava tudo lá para uma leitura difícil. Resistiu o tempo que teria de resistir… (repare-se que não se diz “durou o tempo que teria de durar”…). Ninguém lhe tocou durante meses… conquistou espaço. Um dia alguém disse: “já chega!” Pôs-se um ponto final no abandono e procedeu-se à demolição da coisa. Supostamente, para se criar outra coisa.
Quem entrou no cartaz com tudo (e para além dos olhos) sabe o que representa. Ao tocar-lhe, a leitura táctil revelava as palavras do objecto: “estou a morrer lentamente”. Dizia exactamente aquilo que ninguém quer ouvir por a recusa de contacto representar um choque eléctrico de verdades: “descer aos confins do inferno…”
Criaram-se seres amorfos, sem olhos, sem ouvidos, sem cérebro. Ficaram apenas com uma boca para dizer disparates e para se alimentarem das palavras dos outros. O ego cresceu e apodreceu tudo o resto. Parou tudo no tempo. Esqueceram-se dele e do acto pérfido e assassino que o adormeceu lentamente (a pior morte de todas). Depois, lavaram as mãos, despiram as manchas de sangue e sorriram para o primeiro marginal numa atitude de desprezo.
O ser foi cortado a meio.
Poucos presenciaram a demolição lenta. Os restantes taparam os olhos. Outros, já amorfos, invocaram o mundo solipsista. O tempo, com tantos atentados de atraso, desfragmentou-se e espalhou-se pelo papel… Houve quem o agarrasse e o perdesse aos poucos no caminho de todos os dias para casa. Sentia-se os bolsos esvaziar.
Não se esquece a MAE.
Há sempre alguém que aparece para dizer: “o cartaz está torto”. É essa a função dos fantasmas que não se vêem, mas que defendem estar sempre em todo o lado. Não importa ajustar o cartaz. O que importa é esperar que ele fique torto e lembra sempre que “o cartaz está torto”. Porque esses fantasmas precisam de se alimentar de algo convém colar os cartazes sempre tortos… No outro dia passei por um fantasma e ele disse-me quase a pedinchar: “cola um cartaz torto!”. Eu respondi: “não tenho mais cartazes para colar”.
Provavelmente, nunca ninguém vai resolver o mistério do cartaz rasgado. Quem terá arrancado o cartaz? E porque é que o arrancou precisamente naquele dia? A resposta que muitos dão é que era impossível arrancar o cartaz e outros defendem a tese que o cartaz se arrancou a ele próprio. Rasgando para sempre a sua infinita resistência.
Os dias foram contados.
Tudo se faz tarde. Nada se faz a tempo. O cartaz responde à questão temporal com um “sempre”. Toda a história se escreve depois…